

Bela, porém, era jovem e inexperiente. Infelizmente para ela, era fácil conquistar o seu coração. Um olhar, uma fração de segundo, algumas palavras – e lá ia Bela, seu coração na redoma, entregar o precioso presente nas mãos daquele que seria, para sempre, o dono da delicada peça. A questão era que a princesa se enganava. O coração sumia, roubado. Sem seu coração, a princesa não podia existir – e caía em sono profundo, entristecendo todo o reino. Um sono sem sonhos – ninguém sem coração pode entrar no reino do Lorde Sonho. De uma maneira ou de outra, o coração reaparecia – machucado, mal cuidado, maltratado por mãos que não compreendiam o seu valor e importância. Os magos faziam o possível para remendar as falhas, para retornar o coração à Bela da maneira mais intacta que podiam. Porém, cicatrizes se formavam na superfície macia, diminuindo o seu brilho e beleza.
A Princesa se apaixonava, perdia o seu coração, recolhia-se em si mesma e o aceitava de volta. A freqüência desse ciclo foi se esgarçando no tempo. A Bela, magoada por não conseguir encontrar a pessoa certa em suas tentativas frustradas, foi desistindo. Guardando o seu eu vazio com ferocidade. Era melhor que o seu coração permanecesse perdido – assim, não poderia machucá-la ainda mais, mantê-la refém da esperança de que, na próxima vez, as coisas seriam diferentes. Nunca era diferente, só piorava. A Princesa foi ficando cínica, perdida no seu mundo escuro e sem sonhos. O reino lamentava que a Bela estivesse cada vez mais distante deles.
Um daqueles magos, igualmente triste com a desilusão da Princesa, recebeu mais uma vez o coração machucado. Estava tão amarrotado e sujo que mais parecia um trapo do que um coração. Já bastava, pensou ele com a arrogância e o desprendimento dos jovens. Não iria devolvê-lo à sua dona, ela era uma descuidada. O Mago tomou para si a responsabilidade de cuidar daquele coração arrasado. Em silêncio. Devagar, poupando-o de mais sofrimentos. Indiferente à resolução do Mago e à maneira como ele velava por ela e por seu mais precioso bem, a Bela vagava como sonâmbula naquele mundo, sem sentir. E sem se importar em não sentir, já que o seu coração estava distante...
Sob os cuidados do Mago, o coração começou a se recuperar. Lento. Pequenas coisas, pequenos detalhes. A Bela se viu passando mais tempo desperta. Quando dormia, o Sonhar já não a expulsava – a acolhida relutante foi tornando-se um caloroso gesto de boas vindas. A cor voltou ao seu rosto, o brilho aos seus cabelos. A Princesa flagrou-se sorrindo e ficou mortificada por tal ato. Como poderia sorrir, sem seu coração?! Que tipo de monstruosidade era ela, sorrindo apesar de ser uma falha humana, cujo coração andava perdido pq ninguém o desejava?! Mas mesmo os seus pensamentos negativos não diminuíam a força que ela sentia crescer diariamente. Enquanto isso, nos seus aposentos, longe do olhar dos seus mestres, o mago via aquele farrapo roto transformar-se, lentamente, em bela flor rubra. O coração da princesa era tão lindo quanto ela, e ele poderia cuidar dele para sempre...
Um dia, a Bela observava, em silêncio, a fonte de mármore rosa com suas águas borbulhantes, travessas. O som de passos fez com que ela desviasse o olhar na direção, reconhecendo um dos magos do castelo. Nas mãos longas, ela viu uma redoma familiar...
Protegido pelo cristal, o coração da Princesa falhou uma batida, em uníssono com o espírito de sua dona. O Mago aproximou-se hesitante, enquanto, aturdida, a bela arrebanhou as saias e se ergueu, num tenso silêncio de expectativa. Seus olhos observaram o conteúdo da redoma, arregalados de surpresa:
- Esse... É o meu coração?!
- Sim, minha Princesa – o Mago tinha a impressão que a saliva virava areia na sua língua. Por todos os deuses, ela era linda, tão linda qto ele supusera que ela fosse, reflexo perfeito do coração que ele cuidara por meses à fio...
- Mas... Ele não está mais sozinho. - ela nota, incrédula, a presença de outra flor tão rubra quanto a sua, num tom mais escuro e que vibrava de maneira agitada sob o cristal. Faziam um par perfeito. O Mago suspira, parecendo graciosamente embaraçado (afinal, não ficava bem pra um homem do seu tamanho admitir aquilo...):
- Temo ter perdido o meu coração para o seu, Bela. É seu, se o aceitar. - ele completa timidamente. Era um mago iniciante, sem estabilidade no emprego. Conhecia cada causador de cada cicatriz no lindo coração do qual cuidara, e não se achava páreo para aquilo. Seus dedos cerram-se na redoma com mais força, querendo adiar o momento em que teria que dizer adeus á flor que o conquistara... A voz suave e viva da Bela, porém, faz com que ele erga o olhar:
- Eu aceitarei, Mago, se fizeres o mesmo por mim... - ela estendeu a mão para a redoma. Os dedos se tocando, fazendo aquela barreira cristalina sumir. Não havia mais necessidade dela. Os dois corações bateram em uníssono, unidos para sempre, antes de ocuparem seus respectivos lugares, no peito de cada dono e, ao mesmo tempo, no do seu par...
A viagem terminara. O coração da Princesa estava em casa.