

Foo Fighters – Aurora
Hoje eu me flagrei pensando em você. Não que eu não pense em você com alguma freqüência – uma rápida e momentânea conexão de sinapses, uma memória que brota e some sem aviso. Hoje eu me flagrei conscientemente pensando em você. Uma ponta de saudade misturada à incredulidade, à tristeza e à raiva. Mas a raiva se for deixada quieta no canto dela, eventualmente esfria. E fica assim como a minha, uma coisa morna que não anima mais nada e só torna tudo mais cinzento.
Hoje eu parei por um instante e pensei em como você estava. Sei que a sua vida é complicada. A de todo mundo é. Mas você tem complicações extras. Sua solidão na cidade grande, os empregos ruins, a família que mesmo distante dá dores de cabeça. Me peguei preocupada. Será que você está se cuidando, comendo direito? Ou continua andando por essas ruas com nenhuma companhia além de sua sombra, na plena convicção de que nada de mal vai te acontecer? Não tenho mais como saber da sua vida, uma vez que fui expulsa dela. Você certamente esticaria a coluna e diria que você não me expulsou, que eu sai por minha conta, que antes disso, se alguém havia sido afastado, esse alguém era você...
Eu me pergunto se de fato você acredita nisso. Se a sua consciência não te acusa nem um pouco que a história não foi bem assim. Se você acha sinceramente que fui eu a responsável pela destruição desse laço. Será que você cogita que pode ter sido você? Essa possibilidade existe na sua mente? Talvez não. É tão mais fácil se fazer de vítima indefesa, cervo colhido pelos faróis de um caminhão assassino. É tão mais fácil não admitir o ciúme, a infantilidade, a ofensa disfarçada de sinceridade. Você não estava usando a honestidade, estava sim machucando fundo e sabia disso, tenho certeza. Não é o tipo de coisa que se faça inadvertidamente. É tão mais fácil se agarrar a essa máscara e pacificar as vozes sumidas da consciência. Optar pelo mais fácil parece ser um hábito, pois a vida já é tão dura...
Sinto sua falta. De verdade. Mas me pergunto que tipo de pessoa você é, com essa capacidade enorme de afastar as pessoas que se preocupam contigo. Primeiro sufoca, impõe-se em todos os espaços, faz planos e uma vez que o brinquedinho se rebela, ou te decepciona, você vai embora. Não importa se 99% das suas vontades foram satisfeitas – ou tudo ou nada. Jeito extremista de ver as coisas. Life on the edge. Depois que você se foi, outras pessoas se aproximaram e comentaram comigo atitudes suas. Percebi que não era só comigo que vc agia assim, afinal. Longe de alívio, eu só senti a tristeza aumentar. Meus sentimentos não te ajudaram em nada a mudar – você os usou como já havia usado outros sentimentos alheios, antes.
Com ou sem você, a vida segue. Novas pessoas surgem, velhas pessoas são redescobertas, os laços que te provocaram ciúme só ficaram mais fortes. Continuo sorrindo e criando. Tenho saudades das madrugadas, dos telefonemas. Parte de mim sente muito não ser a pessoa que você esperava. Mas a maior parte de mim não pede desculpas por não corresponder às suas estranhas expectativas. Os bons sentimentos não resistem a esse jogo de “a culpa é toda sua”, pq eles são fortes, mas até mesmo a fortaleza deles tem limite. Sua incompreensão, seu ciúme tolo (pra que tanto ciúme, eu me pergunto... Se eu tenho sentimentos de sobra para quem conseguir se aproximar de mim...), suas palavras agressivas disfarçadas se ciência, sua atitude teimosa e defensiva me machucaram fundo. Mais uma cicatriz numa alma que já carrega algumas. Mas estou aqui.
E você está onde quer que esteja, suponho. Uma alma solitária que provavelmente não vai entender que a confiança e o carinho não são essas algemas que você imagina. Que gostar de alguém não significa se trancar numa redoma com essa pessoa e não permitir a entrada de mais ninguém. De que adianta chamar alguém de “irmão”, se essa é só uma maneira de encobrir sua possessividade? Sou uma pessoa, e não um objeto, para pertencer só a você, trancado dentro de uma caixinha dourada à qual só você pode ter acesso. Gostar de outras pessoas não significava gostar menos de você. Mas, infelizmente, não é assim que você enxerga o mundo...
Eu tento imaginar como está o seu mundo agora, sem mim. Não tenho sucesso. Imagino que você não perca o seu tempo pensando em mim, já que eu fui descartada com tanta facilidade. Devo ter sido substituída por outra pessoa, a sua nova “melhor companhia do mundo, alma gêmea, a única pessoa que te entende, etc etc”. De todo modo, eu torço por você, ainda. Não sou mto esperta, não sei alimentar sentimentos daninhos por muito tempo. Espero que esteja tendo uma boa vida. Que um dia, você cresça e entenda que os seus conceitos não são os melhores. Que no jogo dos relacionamentos, não há espaço para extremos sem a punição de ver a pessoa preciosa ir embora. Ou ser expulsa. No fim, não faz diferença, pois o resultado é o mesmo – a ausência...
A pílula de hoje é: Existem muitas maneira de dizer o que você pensa. E se você escolhe a pior delas, você não está defendendo a verdade – está apenas agredindo a outra pessoa gratuita e deliberadamente. E outra: a sua verdade não equivale, necessariamente, à verdade dos fatos (ia dizer verdade verdadeira, mas isso é realmente dúbio)...