

Damien Rice – Cold Water
Calor. Insano, insuportável, deixando a pele grudenta sob a roupa e dando aquele desânimo. Aquele velho vaqueiro que morava na fazenda do meu avô diria que o sol baixou uns 10 metros, aproximando-se mais de nós. A idéia é tão maluca que faz jus ao clima. Árvores paradas como numa fotografia. Sem vento nem pra encher uma xícara.
As obrigações, porém, não se importam com as adversidades climáticas. Entro no carro e me sinto um bolinho, cozinhando em forno pré-aquecido. O ar condicionado não condiciona mais porcaria nenhuma, só me joga um bafo quente no rosto que faz a minha garganta secar mais. O bloqueador solar (oh, ilusão – adoraria que bloqueasse alguma coisa...!) escorre pela testa e ameaça cair dentro dos olhos. Os óculos escuros escorregam do nariz. Chris Cornell, no som, me faz companhia, indiferente a essa sensação abafada que parece se desenrolar e cobrir a cidade como um tapete. Um incômodo e invisível tapete.
A pasmaceira criada pelo calor parece atingir os motoristas, causando-lhes uma sensação inversa de pressa furiosa. Estão mais loucos do que nos outros dias. O banco está vazio e agradavelmente fresco, e eu só não lamento sair de lá tão depressa porque a outra fila que eu tenho que pegar e posso ver através da superfície envidraçada simplesmente não existe. Oh deus, não tem fila. Se não fosse por esse calor infernal, eu quase poderia ouvir as trombetas angelicais que anunciam um milagre. Paro no meio do caminho pra comprar uma garrafa de água. O toque gelado é refrescante, mas insuficiente. Me faz pensar em como seria perfeito estar nua dentro de uma piscina daquelas de sonho. Um espelho líquido, azul e frio... Principalmente frio...
Uma incômoda sensação começa a me tomar. Além do calor. Um peso esquisito atrás dos olhos. Uma coisa ruim. O chão meio q oscila sob meus pés e eu me sento num dos bancos da praça, sob uma abençoada sombra, tentando me recompor. Sem sucesso. Isso é ridículo. Vivi aqui a minha vida inteira e nunca o calor me fez passar mal. Levantando a cabeça e vendo o termômetro marcar 37 graus, percebo que talvez tenha que rever minhas opiniões. A maneira como a roupa está se colando a minha pele me dá ânsias. Vou caminhando de volta para o carro, uma mão no muro para manter o prumo. Não vou fraquejar. Não há quem chamar, estou por minha conta. Sorte minha que sei o que tenho que fazer e o lugar é perto. Vou dirigindo a vinte quilômetros por hora, incomodando um mundo de motoristas e mais um pouco. Em qq outro momento, eu teria lhes dado uma excelente sugestão do que fazer com suas buzinas. Não agora...
Consigo chegar ao hospital. Lá, conheço quase todo mundo – foi a casa do meu pai por meses sem fim, e eu estava lá todos os dias. São uns anjos de jaleco branco. Estacionam meu carro, me levam pra uma sala deliciosamente gelada, me espetam soro na veia e o médico vem conversar comigo. Sim, e tinha passado mal por conta do calor. Um pouquinho desidratada. Irônico, já que tinha bebido horrores de água. Mas quem sou eu pra discutir com o médico. Tomo meus medicamentos e, dentro daquele ar condicionado abençoado, espero o mundo entrar em foco novamente...
Finalmente me sentindo melhor (ainda com a cabeça grossa, mas enfim), volto pra casa. Não digo nada a minha mãe, para que preocupa-la? Tomo um longo banho, abro as janelas de par em par no quarto escuro. A brisa é fraca, mas está lá. Coloco o velho Frank baixinho no som, sua voz máscula servindo de complemento ao barulho que a rede faz. Descanso, como o médico recomendou.
Mas esse maldito calor não passa...