Chaos A.D. …
Total alarm
I'm sick of this
Inside the state
War is created
No man's land
What is this shit?!
Refuse/Resist
Refuse
Sepultura, Chaos A.D.
(Trilha Sonora de Athena chutando as criaturas do Caos do seu andar)
Enquanto as Musas se divertiam, a zona se instalava no andar onde ficava o seu escritório... Caos tinha mandado as suas imbatíveis representantes do Tártaro, as Fúrias, para orquestrar a possessão daquela terra de ninguém que o departamento havia se transformado.
As Fúrias não se chamavam assim à toa – por isso, preferiam ser designadas como as Erínias. Nomenclaturas à parte, Tisífone, Megera e Aleto pareciam, com a sua presença, seus cabelos tingidos de cores existentes apenas nas caixas de canetinha e suas roupas de couro estilo sadô-masô, congestionar ainda mais os sistemas. Elas estavam lá pra destratar cada alma criadora que acessasse o sistema em busca de inspiração. “Tu tá maluco se acha que alguém vai querer ler ISSO!”.
Ao redor do mundo, artistas se frustravam. E reclamavam e arrancavam os cabelos, caindo no chão e batendo mãos e pés aos berros como crianças birrentas. Queriam criar e não conseguiam. Bloggeiros publicavam músicas, receitas e notícias em seus blogs... Uns até admitiam envergonhadamente a súbita falta de inspiração, mas sempre tinha um engraçadinho deixando um comentário de que tamanha falta de inspiração era, na real, falta de outra coisa. Mestres de RPG lançavam seus players numa dungeon indistinta, na esperança q os personagens se matassem antes q a falta de idéias fosse percebida. As novelas da Globo pararam – o q de certa forma foi um alívio para a nação. Emails ameaçadores fizeram a Etherealnet sair do ar. As telefonistas choravam de desespero, pois não conseguiam nem sequer atender, o que dirá repassar as ligações. Éris, a Deusa da discórdia, estava mais feliz e ocupada do que estivera na reunião do G8. Enfim, a baiúca ficou tão incontrolável que os altos escalões acabaram por serem notificados. Eis que passos são notados no corredor do andar das Artes e Ofícios. As deidades menores se boquiabriram, suas gargantas liberando “ooohs” de reverência e incredulidade na medida em que ELA passava. Pq ELA não era mais uma deusazinha qualquer, ELA era a toda poderosa daquela área (afinal, não era qq uma q nascia da cabeça do Zeus já inteiramente equipada para a batalha): Athena.
Athena é a deusa da guerra, da sabedoria e dos ofícios (em suma, a mulher é do balacobaco). Ela tem um ar meio masculinizado, típico das altas executivas – nesse tipo de negócio, se vc é uma florzinha delicada, o lugar mais longe que vc vai é a cama de um safado como o Ares ou o Thor...Ou do Hefesto, se você estiver em um dia mto ruim. Seus cabelos estão presos com severidade, e a única coisa que quebra a sobriedade de seu terninho Armani é um pequeno broche em forma de gladíolos na lapela. Representavam força, q ela tinha de sobra. Se bem que, naquele momento, a deusa parecia prestes a acertar alguém com uma lança, isso sim...
A porta do escritório das musas é aberta com uma dose de violência, e lá do seu cantinho, Phobos desvia o seu olhar da tela onde assistia impunemente um episódio de Naturo e fica de todas as cores ao constatar a presença da GC (“grande chefe”) bem diante de si...
- As Musas. Onde estão elas?!- a pergunta é cortante. Phobos gagueja:
- Bom, Dona Athena... Elas... Elas meio que se revoltaram, sabe... Falta de condições... Excesso de trabalho... E tem todo aquele lance da Urânia e o planeta que não é mais planeta. - o estagiário parece satisfeito com a sua explicação. As sobrancelhas de Athena se unem, tentando entender, até que finamente ela compreende (Ora essa, ela era a deusa da SABEDORIA, pô!).
- Hm... Percebo... Problemas de auto-estima e stress. Elas poderiam ter falado comigo, ou com Kwan Ti antes de sumirem e armarem toda essa confusão! Não é possível que elas não entendam a importância delas dentro do nosso trabalho!
- Ninguém quer falar com o Kwan Ti, Dona Athena.
- E pq não, Phobos? Ele é o pacificador, o intermediário...
- Ele é um chato, dona Athena. Com aquelas dinâmicas de grupo e aquele papo de abraçar as árvores.
-... Levarei à sua observação em conta. Agora, preciso encontrá-las. Ninguém suporta mais a Aleto nos telefones. Vamos acabar afogados em processos de consumidores angustiados.
- A senhora pode tentar a Pítia, Dona Athena. Não é ela quem sabe de tudo?- a Pítia era uma velhusca puxa-saco de Apolo que adorava dar conta da vida de todo mundo – dentro e fora do espaço de trabalho. Se alguém soubesse onde encontrar as Musas fujonas, certamente seria a Pítia. Athena se arma de paciência. Seria obrigada a ver as fotografias dos netos da fofoqueira, a dizer que os pequenos monstrinhos eram fofos e que o marido da pequena Pítia era um vagabundo. Suspirando, ela endireita os ombros. Era também a deusa da guerra – e sabia que, em momentos de urgência, algumas estratégias condenáveis teriam que ser usadas. Assim, a deusa marcha a passos largos para o Oráculo. Satisfeito por ter sido – ao menos uma vez!! – útil, Phobos volta pro seu anime...
Com uma risadinha meio alta, Polímnia vira mais uma dose de drinque de maçã e estende o copo para o garboso elfo preencher o espaço tristemente vazio. O lugar era cheio de deidades jovens, saradas e dispostas – era um crime algumas das pobres Musas estarem com típicas “roupas de escritório”. Como se tivessem fugido do trabalho. Bem, tinham mesmo. Sentindo-se uma escolar mal comportada, Poli revira os olhos com uma risada feliz. Se não podiam nem cometer aqueles pecadilhos de vez em quando, de que servia ser divindade?! As outras Musas deixavam os olhares correrem pela pista lotada. Cada uma delas lembrava, de um modo ou de outro, quando o mundo era mais jovem e inocente. Elas eram realmente importantes naqueles dias... Inspiravam poetas, heróis... Eram tempos mais felizes. Não havia cantores de rap cantando “só as cachorra u-hu” e nem pretensos reaggueiros miando “quando deus te desenhou ele tava namorando”. Sentiam-se realmente necessárias. Agora pareciam presas em um escritório meio à força, resolvendo pepinos que nada tinham de gloriosos e ainda por cima sem sequer terem o gostinho do reconhecimento. Havia tantas fontes de inspiração pessoal agora que elas haviam sido reduzidas a administradoras. E aquilo doía horrores...
O rumo de tais pensamentos coletivos, claro, substituiu a alegria pela fuga por um início de deprê-de-bar básica. As irmãs se olharam. Aquilo não parecia mais uma situação de música alta e risadas, estava mais pra sofá, sorvete de chocolate e filmes tristes na tv. Elas estavam quase conseguindo arrancar Calíope de uma discussão com um centauro gostosão e tatuado acerca das melhores maneiras de se gastar estamina (o centauro em questão parecia mais do que disposto a servir de auxiliar no processo de queimar energias), quando a porta do Yggdrasil foi aberta de par em par. No instante seguinte, o lugar todo caiu num silêncio pesado. Se a própria Tiamat tivesse aberto aquelas portas, a surpresa não teria sido tão intensa. Pois quem fitava as Musas com expressão insondável era Athena. E os fatos de Thália ter soltado um audível “ih, ferrou”, Éroto ter se afastado de Menthu com ar de culpa e o batom meio borrado e Euterpe imediatamente ter deixado de gritar diante do palco, para Pan cantar “aquela do Roberto” não ajudaram muito a melhorar a situação das musas. Afinal, quem em sã consciência gosta de ser flagrado pelo chefe na farra, especialmente dentro do horário de trabalho?!
As irmãs se entreolharam. Mas ergueram o queixo. Destemidas. Eram mulheres adultas, independentes e modernas. E estava na hora de arcar com as conseqüências de seus atos... Ou sair correndo. Infelizmente a 2ª opção não era exatamente válida. Só lhes restava esperar...
Momento de suspense na novelinha das Musas. e eu me pergunto se esses textos não estão longos demais. Será?! Textos pra mim nunca são longos demais... Acho q isso está ficando bem óbvio... -_-'