

Após o fiasco do sr. Engravatado, fui ao shopping. Na lista de coisas a fazer, uma passada na pet shop – temos duas cadelas em casa e eu tinha que ir comprar uns agradinhos para elas. Embora, um dia, quando criança, tenha imaginado que o meu eu crescido seria veterinária, uma prova de química me tirou essa possibilidade das mãos. Gosto de animais, mas não gosto de pet shops – detesto animais engaiolados naqueles espaços sufocantes e pequenos. A criança que eu fui deu uns dois ou três grandes escândalos em zoológicos por esse motivo. Não gosto de gaiolas, nem de grades – elas são antinaturais pra qualquer animal, inclusive os humanos.
Enfim, cheguei perto do balcão, fiz o pedido e fiquei esperando. Lancei um olhar meio de esguelha para os passarinhos, os porquinhos da índia e os hamsters. O pedido estava demorando a vir, dei três passos e fui olhar um filhote de Yorkshire acuar um filhote baboso de Fila brasileiro. Então senti aquela comichão na nuca, que surge quando alguém está nos observando detidamente, e me virei pra ver quem era...
E eis que surge o rei. Solitário em uma gaiola separada, me encarando com lascas de esmeralda afiadas. Um filhote de gato persa, pelagem preta com pequenas manchas brancas e aquele olhar arrogante que os gatos têm. Eu não sou muito de gatos, nunca nenhum deles tinha me despertado nada em especial – até esse bichano parar a sua vida de gato e me observar.
Dizer que eu estava intrigada era pouco. Pela situação inteira – afinal, os gatos costumam agir como se não ligassem a mínima para os humanos. Eram adorados como encarnação terrena da deusa Bast no antigo Egito – e deve ser por isso que ostentam esse ar de régio desprezo por humanos em geral. Me aproximei e, nem sei porque, passei o indicador pela grade. Não faço isso pra não estressar ainda mais os pobres bichos. O Rei fita meu dedo e, com toda a majestade, se aproxima de mim, lambe minha pele (nem sabia q gatos faziam isso, é um comportamento tão... canino), me fareja e posiciona a cabeça pra ser tocado. Fui considerada digna...
Serva obediente, fiz isso. Fiquei ali por alguns minutos, deliciando o rei com a carícia barrada pela grade. Aqueles olhos verdes hipnóticos em cima de mim. Quando percebi, já estava me imaginando a chegar com esse membro da realeza felina em casa. O clã certamente viria à loucura. Pra não mencionar as cadelas, ciumentas que são uma da outra e do espaço. Não daria certo. Amor impossível. Seria sermão para três encarnações. A lembrança do cartão de crédito dentro da carteira queimando a memória...
“Nossa, ele não te arranhou?!” - uma voz interrompe o devaneio. O vendedor, com os meus pedidos, fitando a mim e à sua Majestade com ar de estranheza no rosto. Então explicou pq o Rei estava solitário na gaiola – arranhava os outros gatos, arranhava e bufava pros prováveis donos, um monstrinho disfarçado de filhote. Não gostava de ninguém e não deixava ninguém chegar perto. Intratável. Enquanto era difamado pelo vendedor, o Rei bateu a sua patinha no meu dedo inerte, como se protestando pela carícia ter parado por um motivo tão banal qto aquele rufião contando mentiras...
Eu havia sido escolhida. Premiada. Coisa de filme. Num instante de insanidade, mandei mentalmente a família e os impedimentos pro raio que os partisse. Já sorrindo de antecipação, perguntei quanto era o resgate do Rei.
A realidade dói. Três dígitos, aproximando-se perigosamente de quatro, jogados na sua cara, também. Um valor absurdo por um animal supostamente intratável e sem pedigree. O valor era mesmo o de um resgate de um rei. Se cometesse tal sandice no cartão de crédito, não só o rei seria expulso da minha casa – eu também, e sem beneplácito da Credicard pra sobreviver. Fitei o Rei e lamentei em silêncio. Com sua sensibilidade aguda, o Rei também percebeu que a nossa história de amor não era para ser. Pertencíamos a mundos diferentes. Uma última lambida, a cabeça macia movendo-se sob meu dedo, sua Majestade me lançou um último olhar antes de afastar-se e deitar-se no fundo da gaiola, as costas viradas para mim. Abraçando a ausência. Não mostraria a sua dor. Nem eu mostraria a minha, tampouco. Apanhei as guloseimas caninas e fui embora... De coração partido, definitivamente, inevitavelmente apaixonada. E sem ter como pagar o resgate. Oh, vida cruel.
Pílula do dia: como doem essas paixões assassinadas em seu nascer...