

Take everything from the inside
I wont waste myself on you!
Linkin Park – From the Inside
A Vida, raramente, é uma educadora gentil. Às vezes, quando tudo o que você quer é sossego, a segurança do anonimato e permanecer impunemente empurrando a sua rotina de qualquer jeito, ela dá um jeito de fazê-lo parar. Segurando a sua cabeça com força, ela te obriga a dar aquela espiada fatal pra dentro de si mesmo. O olhar é fatal porque, por mais breve que seja, a visão terá força o suficiente para persegui-lo por horas. Dias sem fim – enquanto vc estiver acordado ou dormindo, as lembranças do que você viu lá dentro lhe assombrarão; uma impressão capturada com o seu olhar periférico que não para de fugir quando você volta a cabeça naquela direção, confirmando que não há nada ali além do que você já sabe.
A maioria das pessoas tem uma boa índole. Mas não existe alguém que já tenha deixado a sua infância para trás e cuja alma não tenha cantinhos escuros. Aquelas coisas que você fez e se arrependeu. As palavras ásperas que escapam num momento de raiva, ou de dor. As ilusões quebradas, as oportunidades perdidas. Atitudes que terminaram no fim de uma relação, no afastamento de alguém que você gostava e foi vítima de suas farpas. As pessoas que você considerava preciosas e que se mostraram aproveitadoras, indignas da sua confiança. Amores destroçados, traição, veneno. Nada do que vc se orgulhe, mas, de qualquer maneira, pedaços de você, que compõem a pessoa que você é – bem ou mal.
Muitas vezes nos agarramos a esses fragmentos. Não importa se são cortantes, se machucam fundo; são familiares e isso é o que os tornam preciosos para nós. O conforto daquilo que conhecemos. Ouro de tolo, metal enferrujado, vidro vagabundo que se faz passar por límpido diamante. O Desconhecido está atrás da porta número 2, mas como a nossa insegurança nos tolhe, muitas vezes preferimos os cacos devastados do que passou a arriscar uma espiada atrás da tal porta. Porque ela pode esconder coisas ainda piores. Talvez sejamos mais que inseguros, sejamos também pessimistas. A possibilidade de que exista algo melhor ali atrás, e tão perto, parece tão remota e risível que simplesmente lhes viramos as costas, resignando-os à nossa vidinha, à nossa mesmice.
A Vida, mais uma vez, surge e nos disciplina. Força os olhos a se abrirem, a contemplar o que há por detrás do Novo. Não digo que cair de cabeça no Novo seja sempre maravilhoso – há sempre a chance de erros maiores serem cometidos. Mas como saber por antecipação? Não há como. A única maneira de experimentar as possibilidades é segurar o seu garfo com firmeza, espetá-las e prová-las. Sem deixar o medo amargar o seu paladar.
Estamos todos sempre em período de mudanças. Hoje eu contemplo possibilidades que não seriam nem consideradas como hipóteses, há algum tempo atrás. Se tenho medo? Claro. Mas não pretendo deixar que o medo, mais uma vez, me tolha os movimentos, me aprisione com meus cacos. Estou cansada deles. Quero novos cacos, novas experiências. Este é o meu tempo. Lento ou rápido, limitado ou ilimitado, possível ou distante, mas total e absolutamente meu, para ser o que eu quiser que seja...
Pílula do dia: reconheça as chances. E as segure com toda a força.