

Ela olha em volta e se força a sorrir para as amigas. Fora literalmente raptada do sossego da sua rotina de dvd na sexta à noite. Amigas em missão de resgate são um perigo. Perturbaram tanto, que ela acabou se rendendo – soltou o cabelo, maquiou-se, calçou os saltos altos e agora estava ali, segurando uma deslocada água naquele oceano de cervejas e ices. Sorria para as amigas pq não queria decepcioná-las. Mas não se sentia bem ali – combinava com o ambiente tanto qto um cheeseburger combina com uma top model. Uma das amigas a cutuca com o cotovelo, a manda disfarçar a cara feia que estava espantando os carinhas. Ela obedece e sente o seu sorriso ficar 100% artificial. Sabor artificial de garota descolada que estava se divertindo... De sorriso fixo, ela deixa seu olhar vagar. E as íris cor de mel pousam sobre um espécime interessante. Alto, cabelos escuros, cavanhaque... E parecia sentir-se totalmente à vontade, ali.
Ele olha em volta e se força a sorrir para os amigos. Fora literalmente raptado do sossego da sua rotina de livro e boa música na sexta à noite. Amigos quando resolvem que vc tem que colocar a sua vida sexual em dia são uma desgraça. Encheram tanto o saco, que ele acabou se rendendo – seria menos doloroso atender ao pedido do que agüentar aquela lengalenga. Aparou o cavanhaque, escolhera uma roupa com cuidado e agora estava ali, segurando uma deslocada água naquele oceano de cervejas e ices. Sorria para os amigos pq não queria ouvir mais sermões. Mas não se sentia bem ali – combinava com o ambiente tanto qto uma scooter combina com as 500 milhas de Indianápolis. Um dos amigos o cutuca com o taco da sinuca, o manda disfarçar a cara feia que estava espantando as gatinhas. Ele obedece e sente o seu sorriso ficar 100% artificial. Sabor artificial de cara legal que estava se divertindo... De sorriso fixo, ele deixa seu olhar vagar. Sente-se observado. Gira a cabeça na direção certa, instintivamente. E as íris escuras pousam sobre um espécime interessante. Estatura ideal, cabelos de uma cor que oscilava entre castanho e loiro, tornozelos realçados pelos saltos altos... E parecia sentir-se totalmente à vontade, ali.
Os olhares se cruzam, a atenção é despertada. O primeiro sorriso honesto da noite por parte dele, um leve sobressalto por parte dela. Ambos se analisam de maneira discreta. Porém, na certeza de serem os únicos peixes fora d’água naquele ambiente, o entusiasmo diminui.
Olha só pra ele, ela pensa. Jogando sinuca com esse pouco caso de deus grego que resolve visitar os mortais. Deve estar aqui sempre, ser daqueles que conhece cada garçonete gostosa pelo nome (umas até pelo sobrenome). Gostar dessa música chata e pertencer à esse ambiente enfumaçado. Estar aqui toda sexta feira, com os amigos e a companhia da vez. Deus, eu não suportaria isso toda sexta feira. Ele acabaria me achando tediosa, inventando histórias para estar aqui e não comigo. Jamais daria certo.
Olha só pra ela, ele pensa. Sorrindo e conversando com as amigas, um grupo de ninfas atirando charme para os reles mortais. Material para comparações e risadas, depois. Deve estar aqui sempre, ser daquelas que todos os bartenders sabem qual é o seu drinque favorito e ofertam a ela gratuitamente, na esperança de receber um sorriso exclusivo em pagamento. Gostar dessa música chata e pertencer à esse ambiente enfumaçado. Estar aqui toda sexta feira, com os amigos e a companhia da vez. Deus, eu não suportaria isso toda sexta feira. Ela acabaria me achando um porre sem fim, inventando histórias para estar aqui e não comigo. Jamais daria certo.
Suspiros sentidos deixam as gargantas em uníssono. A noite perdera a pouca graça que tivera até então. Ela puxa uma das amigas pelo braço, alega uma dor de cabeça repentina e se despede. Chama um radiotáxi e aguarda bem perto da porta, para não correr o risco de ser demovida. Ele joga a garrafa de água pela metade no lixo, diz a um dos amigos que vai “ali”, mas a maneira como ele devolve o taco à estante mostra que ele não pretendia voltar. Apanha as chaves do carro no bolso e se percebe também sem vontade de ir para casa, sua programação arruinada. Pára por um instante na calçada, sem notar o táxi que passa com a ninfa de cabelos castanhos acomodada no banco traseiro. Ela também se percebe sem vontade de ir para casa. Num impulso, dá o endereço de um café ali perto. Ia tomar um frapuccinno, folhear algumas revistas e tentar esquecer o fiasco daquela noite fora de casa.
É com alívio que ela se deixa ser abraçada pelo ambiente tranqüilo do café. Uma seleção de big bands tocando baixinho ao fundo, um café perfeito, ela se acomoda em uma das mesinhas e começa a folhear uma revista sobre fotografia. Ele estaciona o carro diante do café. Deveria ir para casa e simplesmente aceitar que a noite fora perdida? Bah, poderia fazer isso depois de tomar um cappucinno bem quente. Quando ele empurra a porta, a sineta anuncia a sua presença, e um par de olhos cor de caramelo se erguem na sua direção, com curiosidade que se transforma em choque...
“É o cara do bar!”, ela pensa, boquiaberta.
“É a garota do bar”, ele pensa, de olhos arregalados.
Ambos se analisam mais uma vez. Agora, fora do ambiente coalhado de sons e pessoas. Eles, os livros e revistas, o café e o som suave da orquestra de Glenn Miller ao fundo. A autoconfiança aumenta, a identificação se reforça. E é com certeza absoluta que daria certo, que poderiam ter muitas sextas feiras assim, que ele se aproxima da mesa onde ela estava, sorrisos 100% naturais dessa vez...