

The Soup dragons – I’m Free
A gente escuta muito falar sobre preconceito. Preconceito contra brancos, pretos, amarelos, azuis, índios, gordos, baixinhos, advogados e jogadores de rpg. Assunto exaustivamente debatido pela mídia, pelos meios de comunicação. Na época em que eu era “maior”, digamos assim, também passei por isso. Mas hoje, linda e maravilhosa, achei que estar numa situação dessas seria improvável... Ledo engano...
Eu tenho uma tatuagem na panturrilha direita – uma tribal. Quando decidi fazê-la, a primeira pessoa que reclamou horrores, que disse que achava horrível, coisa de marginal e etc, foi a minha mãe. Como a tatuagem era um plano que eu vinha acalentando há um bom tempo e o dinheiro era meu, fui lá e fiz... E, se vocês já realizaram um sonho, vocês sabem qual é a sensação. Eu adoro minha tatuagem. Não me arrependi por nem um segundo de tê-la feito (apesar do PE – partido evangélico – da minha casa ter dito que tatuagem é o mesmo que carimbar seu passaporte para o inferno. Se só isso for o suficiente, ao menos estarei em excelente companhia, lá!). De qualquer modo, a tatuagem (e/ou o preconceito) tomaram proporções indevidas hoje...
Dia de pagar as contas, lá fui eu ao centro da cidade. Com horário de almoçar no meu restaurante favorito. Como o lugar é perto de um monte de bancos e órgãos públicos – o mais perto de um “centro financeiro” que há na minha cidade – no horário do almoço os restaurantes são cheios de engravatados. Cheguei, me servi, arrumei uma mesa vaga – verdadeiro milagre, o salão estava lotado. Quando estava pedindo a minha sagrada água, um cara se aproximou da mesa com sua bandeja e, com um meio sorriso e um sotaque levemente diferente, perguntou se eu me incomodaria de dividir o espaço com ele.
Ah, eu não me importaria de dividir nenhum espaço com ele. Bonitinho, de cabelo quase loiro, enfiado num paletó escuro, gravata de bom gosto, sem anéis ou alianças... E óculos. Aiai. Adoro homem de óculos. Disse ao gajo que poderia se acomodar, não era problema algum. E assim ele o fez. E foi dando a ficha... Recém chegado, funcionário de uma reconhecida instituição financeira, ainda perdido na cidade, sem amigos (“sem ninguém próximo”, ele disse com ênfase). Eu, simpática que nem girassol sob os raios do astro rei, fui dando minha fichinha também. A conversa enveredou pra outros interesses – música, cinema. Eu estava tão absorvida na conversa que nem lembro do que almocei. Fim de refeição, café pra ele, chocolate pra mim e ele, mto cavalheiro, vem puxar a minha cadeira para que eu pudesse levantar. Absolutamente encantada, aceitei o gesto. E eis que o cidadão visualiza a minha tatuagem, lá embaixo da barra da saia que eu estava usando...
A temperatura caiu uns 70 graus abaixo de zero. Ele olhou pra mim, pra tatuagem pra mim novamente – e eu com aquela cara de “o que?? O que tem grudado no meu sapato?!”. Já pronta pra morrer de vergonha, arrisquei um olhar pra baixo e só via a minha perna, a tatuagem e o sapato. Finalmente caindo a ficha, eu levanto o olhar pra ele e digo:
- Vc não gosta de tatuagens, não é?
- Não, acho vulgar.
Sei que o meu interesse foi congelado naquele instante. Recolhi minhas coisas, agradeci a companhia, me despedi séria e fui pagar a minha conta. Nem olhei para trás pra ver com que cara o cidadão ficou. Provavelmente aquele guardanapo escrito com caneta preta foi para o lixo, com um monte de possibilidades interessantes...
Pílula do dia: se for julgar as pessoas, julgue-as pelo seu interior, sua personalidade e atitudes – não pela embalagem, posses ou tatuagens.