

Ramones – I Wanna Be Sedated
(Direto do GodPod de Clio)
O Universo é composto de várias subcamadas. Indivíduos que vibram em uma determinada freqüência ocupam uma determinada camada – humanos, espíritos, operadores de telemarketing, jogadores de RPG... Cada tipo tem o seu próprio universo particular dentro de uma esfera maior. Porém, há uma camada que está intimamente ligada às outras – a das divindades.
Imagine um daqueles arranha-céus enormes em NY, onde diariamente milhares de pessoas trabalham em suas baias, com seus computadores e seus fones de ouvido, circulando de um espaço para o outro, trocando fofocas na sala de café e reclamando que o pessoal do andar superior tem luxos que eles do andar de baixo não tem. A dimensão das deidades é assim. O espaço é amplo e aceita desde anjos fundamentalistas até santos da iconografia pop, como o Elvis. Existem setores para a Internet, a TV e até pro Marylin Manson. Como em todo grande conglomerado de negócios, os contatos são a chave para se dar bem e puxar o tapete é comum. As grandes figuras representativas de cada religião têm escritórios amplos com vista para os oceanos Lunares, o monte Olimpo ou a Galiléia, à gosto do freguês. Os andares são divididos por Religiões Formais, Religiões Pessoais e Deidades Especializadas. Existem até aqueles deuses que ninguém mais se lembra, circulando pelos corredores com seus passinhos miúdos e vozinhas trêmulas, dizendo “ Nos Áureos tempos, os humanos sacrificavam pra mim 340 virgens á cada verão....”. As divindades mais jovens apenas meneiam a cabeça. Matando tanta gente, não era de se surpreender que tais deuses tivessem sido esquecidos. Aí eles olham pro andar de Alá e meneiam a cabeça mais uma vez. Mas o grupo que realmente nos interessa não está nos grandes escalões – esses mudam com alguma freqüência, e sim no andar de Artes e ofícios, no setor helenístico.
O espaço é atulhado de pessoas. Ou melhor dizendo, de artistas. Daí dá pra imaginar a bagunça completa oculta pela porta onde uma placa caprichosamente feita por Lug em metal cor de prata, com design Art Nouveau assinado por Ptah, que ostenta a seguinte legenda: “Parnaso – Musas (Criação)”. Como você deve imaginar, tem musa (ou muso) inspiradora de tudo que é forma e tamanho. Esses são particulares de cada indivíduo, vão ao prédio de vez em quando, fazem o seu trabalho e somem rapidinho. Quem administra a bagunça e tem a maior carga de trabalho são as Musas – assim mesmo, com “M” maiúsculo. Há um motivo para o nome delas estar na porta. Elas ocupam a principal ilha de baias e trabalham alucinadamente. Como tudo, elas também se modernizaram... Nada mais de peplos branquinhos, grinaldas de flores e trombetas – isso era para quando o nosso mundo era um infante. Ao invés disso, elas tem computadores de ultimíssima geração (que também vivem dando pau), acesso à etherealnet (que de vez em quando sai do ar sem explicação e só retorna com reza brava do Suporte Técnico) e TPIs (tensões pré inspiracionais) que nem qualquer mulher moderna.
O dia em que a nossa história começa parecia bem normal. A baia vazia de Urânia, Musa da Astronomia, deixava as suas irmãs meio tristonhas – a coitada havia tido um chilique nervoso provocado pelo stress e pelo rebaixamento de Plutão, de planeta para reles corpo celeste. Diante daquilo, Asclépio recomendara uns dias de repouso. Seus trabalhos haviam sido passados para um estagiário q só queria saber de fazer downloads de animes e não trabalhava porcaria nenhuma. Na baia vizinha, Clio, musa da História, tentava dialogar com os representantes do judaísmo e dos mulçumanos – ambos reclamando que suas versões da história é que eram a certa. Pobre Clio. Ninguém nunca ficava satisfeito com o seu serviço...!! Pra aumentar seu desagrado, ela viu, pela vidraça que dava para o corredor, passar o “quarteto poderoso”: Freya, Bast, Afrodite e Xochiquetzal – que se apresentava como “Chique”, só. Bundas rebolantes, cabelos longos e sedosos, saltos altos e roupas apertadas – as deusas da beleza e do amor eram um bando de ubberchatas que ficavam se gabando de sua existência,de seus peitinhos empinados e cinturinhas finas enquanto desfilavam pelos corredores, para deleite dos machos e ódio das fêmeas do lugar. Clio revira os olhos e abre a gaveta, retirando um dos maravilhosos doces feitos por Tsao Chun. Só com açúcar na veia pra agüentar tudo aquilo!
Euterpe e Melpômene, respectivamente musas da Música de da Tragédia, fazendo hora ao lado do bebedouro, davam voz aos seus problemas...
- Mel, eu juro, se eu receber um – basta mais um!! – pedido para inspirar outra música q nem as do Charlie Brow Jr. eu vou pedir adicional de insalubridade...! Ninguém agüenta mais aquilo! Quantas vezes eu vou ter que pagar por ter ido aquela festinha com o Baco, ter ficado um tantinho alta e mandado aquela imbecilidade pro tal Chorão?! Aliás, isso lá é nome de cantor?? Agora ficam entupindo minha caixa de emails...! Eu não devia ter cedido à insistência e feito uma pro CPM 22. Eles parecem coelhos, se reproduzindo e se copiando sem controle...!
- Ah, Teppy... Despacha esses chatos pra Benten, não é justo ela só lidar com o J-pop pq ele se desintegra rápido e ela tem que ficar pensando em novos ídolos o tempo inteiro. - Melpômene pisca seus grandes olhos realçados pela maquiagem negra e dramática. - Toda essa sua reclamação não é nada. Não sei mais que desgraças aquele autor de novela quer que eu crie – e olha que a minha imaginação é sádica e pérfida. Mas tem limite! A obra dele devia se chamar “desgraças da vida”, isso sim...
Ao telefone, Thália, Musa da Comédia, não parecia nada divertida. Um comediante já podre de rico queria se “reinventar” com novas piadas. A loira Thália parecia prestes a mandar o comediante se reiventar num lugar bem feio. Éroto, musa da poesia lírica e erótica, folheava uma Penthouse com ar de nojo. Deus, as pessoas não captavam bem as suas vibrações! Aquilo não era erótico, nem lírico, era... Era... Era!! Revirando os olhos, ela atira a revista na lata do lixo. Polímnia, Musa da Retórica, estava escrevendo um email desaforado para o pessoal da Lingüística – ela não se submeteria à pensar em agradecimentos para os jogadores analfabetos zurrarem após os jogos de futebol. Estava fora de sua alçada. Aqueles animais precisavam de arreios, não de uma musa...
Terpsícore, Musa da Dança, estava quase às lágrimas – de raiva – vendo um vídeo da “dança das estrelas no palco em chamas” no GodTube. Os programas de televisão estavam deturpando a sua tão querida arte. Porém, todas as vozes e reclamações silenciaram quando, de maneira eloqüente – afinal, essa era sua praia – Calíope, Musa da eloqüência (duh!) e da poesia heróica, com seu ar de guerreira atlética que praticava spinning e aeroboxe na Academia de Hércules, esmurrou a mesa e urrou:
- CHEGA!! JÁ CHEGA!! EU ME RECUSO A CONTINUAR ASSIM!