

When I talk about it
Aries or treasons
All renew
Big me to talk about it
I could stand to prove
If we can get around it
I know that it's true
But it's you I fell into
Sexta à noite. No bar enfumaçado, a moça de cabelos castanhos e lisos tenta controlar a mecha sedosa pela milésima vez desde que chegara ali, colocando-a impacientemente atrás da orelha. Trabalho inútil, pois logo ela escorregaria novamente. Ela se pergunta, também pela milésima vez, o que diabo estava fazendo ali. Não gostava de ambientes lotados e enfumaçados - ela nem sequer gostava de álcool!! Viera porque a amiga louca insistira. Ela tinha certeza que a única razão da amiga ir ali estava atrás do bar, servindo drinques numa camiseta preta, com tatuagens à mostra nos músculos definidos e sorriso fácil. Aquele joguinho de cliente/bartender já vinha se arrastando à semanas e ela havia sido ali para dar seu "selo de aprovação" ao paquera. O cara era grunge demais para o seu próprio estilo, mas a amiga tinha essa coisa por homens estranhos e ela tinha que, supostamente, entender... Mas não entendia muita coisa não.
Ela olha em volta, observando a multidão se chacoalhar ao som de A-ha. Conferindo a idade das pessoas, ela se sente uma velhinha entrevada de mil anos. Puxa, A-ha era a trilha sonora da sua adolescência, algo que havia ficado para trás há um tempo considerável. Ver aquele bando de receém-universitários, recém- motoristas, dançando ao som da música que ela ouvira qdo era uma garota de colégio a fez ter vontade de fazer que nem aqueles velhotes ranzinzas de filme americano: "Saiam do meu quintal, seus monstrinhos!!", atingindo os ditos cujos com a sua bengala. O pensamento traz um sorriso aos lábios, sorriso que vira um "oh" de slencioso espanto quando alguém ocupa o lugar vazio ao seu lado e dispara:
- Finalmente alguém da minha idade. Oi!- o abusado tinha um sorriso branquinho no rosto forte. As rugas leves nos cantos dos olhos deixavam claro duas coisas: a primeira, que ele não era um recém-adulto, era um homem feito. E a segunda era que ele gostava de escancarar seu sorriso branquinho para o mundo. Sorria com facilidade e, ela pode notar, surpreendida, sem falsidade aparente. Mas quem podia dizer, não é?! Os lobos maus andam aprimorando seus disfarces nesses tempos modernos...
Confundindo seu silêncio com reprovação, o cara continua: - Não pense que eu estou te chamando de velha não, é que eu tenho 30 e acho que vc também, e se mais uma pirralha dessas me perguntar em que faculdade eu entrei eu vou gritar.- ele esboça um sorriso de desculpas e se apresenta.Ok, o cara era meio estabanado, mas isso até que tinha o seu charme. E a maneira como ele parecia querer fugir de todas aquelas franguinhas com seus quilos de maquiagem e piercings no umbigo também falava a favor dele... Não deixava de ser um polimento no seu ego, afinal. Como a amiga estava prestes a arrastar o barman tatuado para uma "hora extra" em algum lugar, ela se deixa envolver pela conversa. Descobrindo, surpresa, gostos em comum. Trabalhavam na mesma vizinhança. Gostavam de gatos, de Klint e da boa e velha música "das antigas". E é um comentário breve que faz o rapaz ganhar muitos pontos com a moça:
- Pode parecer idiotice, mas qdo vejo esse pessoal recém saído das fraldas se apropriando de músicas que eles nem conhecem, músicas com história, só pq os anos 80 estão novamente na moda, tenho vontade de ancar o velhote ranzinza e expulsá-los com a minha bengala...- ele ergue uma bengala imaginária no ar e atinge um adolescente imaginário com todo o gosto, seu sorriso tonando-se maior. Logo ele faz uma cara meio constrangida - nesses tempos politcamente corretos, fantasiar em espancar adolescentes cheios de modismos era um perigo. A moça pousa a mão sobre o braço dele:
- Não, eu entendo perfeitamente...! Eu também me sinto assim, sabe...
O comentário se perde. Peles que se tocam pela primeira vez, corrente elétrica inevitável. Os sorrisos diminuem e somem, a expressão tornando-se alerta e ansiosa... Os olhos dele perscrutam os dela. Os corpos se inclinam um na direção do outro, desbravando aquele terreno ainda inexplorado. Ele ergue a mão, a toca de leve no queixo, pedindo permissão. Ela se move minimamente, como a dizer "se vc não fizer, eu farei". Ele sorri momentos antes dos lábios se tocarem. Invasão aceita, bem recebida, contribuída, retribuída. Perdidos num mundo particular com a música velha tão apreciada servindo de fundo, de trilha sonora antiga para novas e doces memórias.
Os amigos nunca entenderam a razão pela qual eles se chavamam de "velhinho" e "velhinha". Enfim, casais tem essas manias estranhas. Mas eles entendiam. E sorriam sempre ao se lembrar disso...
Ps: Link da música lá em cima :D!!
PS3: E FINALMENTE eu consegui colocar a foto no lugar certo :P!!!