

to show that
you're my every dream
Yet you're afraid each thing I do
is just some evil scheme
A memory from your lonesome past
keeps us so far apart
Why can't I free your doubtful mind
and melt your cold cold heart?
Norah Jones – Cold Cold Heart
À primeira vista, ser inflexível parece ser uma qualidade. Atributo dos fortes, daqueles que não se deixam ser manipulados, que se atém presos àquilo em que acreditam. Confiáveis, conservadores, eternos. Não se deixam influenciar por palavras ou gestos ou nada. Nada adultera a sua percepção de vida. Firmes como rocha, estáveis.
Mas na verdade, ser inflexível não é nada disso. Essa é a visão otimizada e falsa de tal atitude. Ser inflexível significa, na verdade, ser covarde. Ter medo de suas crenças estarem erradas, e assim você as defende com todas as suas forças. A mudança é algo que deve ser temido e evitado, por que é desconhecido e com o desconhecido a pessoa inflexível não sabe lidar. Ser inflexível é ser soberbo – não reconhecer os erros como tal e, por não reconhecê-los, não aprender nada com eles e assim, estar fadado a repeti-los.
Pessoas inflexíveis estão, de certo modo, condenada à solidão – incapazes de reconhecerem as suas próprias falhas, afastam de seu convívio as pessoas que as “decepcionam”, uma vez que as outras pessoas não conseguem ser, o tempo inteiro, um espelho das opiniões do inflexível. Vaidade elevada ao extremo – o seu reflexo ou nada. Pessoas inflexíveis são intolerantes, não aceitam a diferença, que é a grande tônica dos relacionamentos. Nesse caso, as diferenças são arestas tão agudas que a convivência se torna impossível. O inflexível prefere a frieza de suas opiniões e dogmas ao calor da vida ao lado e pessoas de verdade – que podem te decepcionar e entristecer, mas também te fazem rir e te aquecem o coração com pequenos gestos. Infantilmente, se afasta de quem o desagrada. Seus diálogos, na verdade, são palestras – sem direito de intervenção por parte de quem as escuta. Nada de interação ou questionamento, só aceitação.
Presas na sua torre isolada, construída com o diamante indestrutível de suas convicções, essas pessoas vêem o mundo de longe. Ressentem-se porque os demais não entendem que só existe uma única visão certa de mundo - aquela particular da pessoa inflexível. Seria tão mais fácil e harmônico se aceitassem. Algumas até tentam, mas basta um pequeno desacordo, um detalhe mínimo – e o companheiro vira invasor, pra ser expulso, afastado e difamado, se o inflexível tiver alguém que lhe ouça. Essas pessoas posam de mártires incompreendidos. Que nada fizeram além de tentar fazer o mundo um lugar melhor, moldado à sua imagem e semelhança, onde todos acatem a sua verdade. Mas, como já dizia o filósofo, o que É a verdade? Cada um tem a sua verdade, e ela pode conviver com as outras ou não. No caso dessas pessoas de pedra, não podem.
Solidão, frieza, covardia e medo. Ser inflexível é árido. Prefiro ser como as flores, tocadas pelo vento, mudando de direção e experimentando as sensações de frio e calor que a noite e o dia trazem consigo. Errando e aprendendo, quebrando a cara e me decepcionando, descobrindo felicidades ocultas, almas preciosas atrás de portas fechadas, ouvindo as experiências alheias, deixando a vida dos outros tocar a minha e dividir as minhas histórias com quem quiser ouvi-las, crescendo e deixando o mundo se aproximar de mim...