
It's not like you didn't know that
I said I love you and I swear I still do
And it must have been so bad
Cause livin' with me must have damn near killed you
This is how you remind me of what I really am
This is how you remind me of what I really am
It's not like you to say sorry, I was waiting on a different story
This time I'm mistaken for handing you a heart worth breaking
I've been wrong, I've been down, been to the bottom of every bottle
These five words in my head scream "are we havin' fun yet?"
Nickelback – This is how you remind me
Em um pesado silêncio, o rapaz se recosta na cadeira estofada de vermelho. As coisas ali estavam um tanto diferentes do que ele se lembrava – não havia mais seu rosto nos porta-retratos, e sim o de um cara que ele não conhecia. Seus olhos observam as fotos. Espontâneas. Ela parecia... Feliz, e aquilo doía. Um olhar em volta atesta que ela havia mudado outras coisas na decoração – um pôster de Toulose Letrec que não existia antes sobre uma parede amarelo-limão. Vibrante, gritante aos olhos. Não... Na época dele, nenhuma lata de tinta amarelo-limão entraria naquele espaço. Ela gostava que ele fosse sóbrio e clássico. Ou ao menos dizia gostar...
Ele se inclina e examina a estante. Música eletrônica, techno e finalmente algo que era a cara dela – cds de música cigana e árabe. Como se os seus cds de rock progressivo jamais tivessem conspurcado aquele rack. Livros, muitos, de todos os assuntos, vários quadrinhos embalados caprichosamente em sacos plásticos e organizados por tema e numeração. Ele nunca fora muito de livros além dos profissionais. Não havia sinal de sua existência naquele lugar, e aquilo lhe trava a garganta de uma maneira não exatamente inesperada, mas que ainda cortava como faca afiada. Mesmo que tivesse sido ele a sair por aquela porta com a promessa de nunca mais voltar.
Os sons que vinham do banheiro eram familiares. Por isso mesmo, pareciam mais uma ironia sonora, saber que ela ainda fazia tudo igual mesmo que ele não estivesse mais ali. Ele a ouvia se movimentando, cantando fora do tom a música que vinha do estéreo. O som dos cabelos sendo envolvidos pela toalha, enrolada em forma de turbante. O cheiro de sabonete e talco, frescor e limpeza que ele sempre ligaria a ela. Como ele previu, ela empurrou a porta do banheiro vestindo a velha camiseta cinzenta sobre as calcinhas de algodão que usava para dormir – calcinhas de vovó, que ele adorava puxar de sobre a pele macia com os polegares. Achava que ela ficava tremendamente sexy naquelas calcinhas. E sempre lhe dizia isso... Ao que ela ria e negava, envaidecida.
A moça passa por ele, atirando a toalha com pouco caso sobre a cadeira que ele ocupava, liberando os fios escuros ainda úmidos. Ele afunda os dedos na toalha desejando afundá-los naquela massa luxuriante e brilhosa sob a luz quente da luminária de canto, sob a luz noturna e fria da cidade que entrava pela janela aberta. O perfume dela saindo das fibras de algodão e lhe atingindo, acordando coisas que deveriam se manter adormecidas, pelo bem da sua própria sanidade. O som de uma voz desconhecida e risadas o despertam do torpor sensual. Lá estava ela, com o novo namorado, um cara que ele não conhecia, totalmente diferente dele mesmo... E que a fazia feliz. Como ele não conseguira.
Com o olhar fixo, ele acompanha o desconhecido remover os óculos de aros grossos do rosto e aceitar o abraço fresquinho, de banho recém tomado, que ela oferecia. Inclinando-se sobre a mesa onde ele trabalhava no computador. A máquina fica esquecida quando ele gira a cadeira e a acomoda sobre os joelhos, beijando-a... Como o observador já tinha beijado, antes. Ciúme e dor o invadem diante da cena. Por que ele fora embora?! Por que ele não havia conseguido que fossem assim tão... Felizes? Não se lembrava daquele brilho no rosto dela, antes. Não tivera a capacidade de fazê-la brilhar como esse estranho tinha. Esse estranho que tinha ocupado todos os espaços que um dia haviam lhe pertencido. Esse estranho conseguira coisas com as quais ele apenas sonhara. Não conseguira trazer o sonho à realidade e acabara enredado por uma rede de frustração, dor e traição. Afastara-se, sem saber o valor do brinquedo que deixara quebrado, para trás. E ela... Ela seguira em frente sem ele.
Os dedos acariciam a toalha uma última vez. Ainda guardam a umidade e o calor do corpo dela, mas aquilo não o pertencia mais. Ele a perdera. Era hora de reconhecer-se vencido. Com um último suspiro, enchendo seus pulmões que não existiam com o cheiro dela, a memória aceitou o frio abraço do esquecimento, sumindo devagar. Relutara em ir, mas agora, percebia que não tinha mais lugar na realidade da vida dela. Passado em seu lugar, deixado para trás...
P.S.: Post inspirado por esse vídeo do Nickelback ...