
Era uma reunião. Elas não se encontravam se não fosse extremamente necessário; embora dividissem o mesmo espaço, era improvável afirmar que elas gostavam umas das outras. Pois cada uma delas tentava se sobrepor à outra, ser a dominante. Claro que variava; um dia uma estava no topo, pra ser substituída por outra no dia seguinte. Aquela indefinição, por mais que fosse esperada, tinham o poder de aborrecê-las e, de certo modo, era isso que as mantinha unidas... Isso e dividirem o mesmo corpo, claro.
A Advogada, com sua expressão fechada e ar de impaciência, pensa que deveria estar estudando e não perdendo tempo naquela socialização forçada. Afinal, ela era a única ali que se preocupava com questões urgentes, tais como emprego e grana para pagar as contas (absolutamente supérfluas, na sua opinião) no fim de cada mês. As outras eram umas cabeças de vento que pareciam confiar plenamente naquele dito popular de que as coisas eventualmente se resolveriam, de um modo ou de outro... Cabeças de vento, ela pensa e maldiz o destino que lhe arrumara tal companhia.
A Artista, com sua ponta de desprezo por essas coisas mundanas, comentava com a Adolescente os novos planos para os escritos, apontava com orgulho as fotos que havia tirado em uma viagem recente e lamentava que o seu tempo de criação havia sido de reduzido por causa “dela”. A Advogada era a merecedora das aspas e da designação duvidosa; com sua visão realista do mundo, não cansava de dizer que aquele negócio de arte, de literatura, de RPG, era pura perda de tempo. E tinha a sua posição reforçada pela Mãe de todas elas, que concordava plenamente com tal postura responsável...!
A Adolescente, com a sua camiseta onde se lia “punk royalty”, abana com a mão no ar enquanto estoura uma bola de chiclete. Gesto vazio para espantar o mau agouro da Advogada. Ela também faz comentários, diz que “assim que deixassem” (olhada fatal para a Advogada, que parecia mto ocupada calculando o valor que pagaria de INSS naquele mês) ela iria escrever para os rpgs, já sabia mais ou menos o que iria acontecer, e comprara um maravilhoso livro de referência sobre os x-men que com certeza ia ajudar – e muito – no desenvolvimento das tramas. Mesmo de cabeça baixa, a Advogada rosna que gostaria de ver tanto empenho no estudo do Dir. civil. Ao que a Adolescente responde que se em qualquer ponto daquele resumo idiota tivesse alguma coisa divertida, o empenho seria similar...
A velha discussão só não explode pq a Ama chega, esbaforida, e pede uma água, pelo amor de Deus. Aquela vida de ir a bancos pagando contas e fazendo supermercados não era vida. E ela sequer ganhava um “muito obrigada” por isso, verdadeiro absurdo...! Por isso, era bom aquelas bitches calarem a boca e pararem de encher o saco, pq elas não sabia nada acerca d trabalho pesado e não-remunerado.
A Amada chega, graciosamente atrasada, carregando compras que fazem tanto a Ama quanto a Advogada revirarem os olhos em desgosto. “Ah, umas bobagenzinhas, nada de mais...” ela diz naquele tom usualmente delicado e feliz que ela usava, estendendo os últimos lançamentos de quadrinhos para a Adolescente, e uma caixa daquele grafite 4B da Pentel q era impossível de se encontrar para a Artista. Ela exibe os brincos em forma de estrela que comprara para si. Para a Ama e a Advogada, ela murmura um “desculpe, não encontrei nada que agradasse vcs”.... Com um ar cândido demais para ser verdade. Outras chegam e vão se acomodando: a Amiga, maternal e preocupada, a Ao Contrário, sempre do contra e de cara feia, a Amante, que andava meio sozinha naqueles tempos (mas ainda esperançosa) e outras, outras mais, até que a mesa fique cheia de vozes e figuras femininas semelhantes entre si, e, ao mesmo tempo, tão diferentes. A Advogada (sempre ela) toma a palavra e faz as irmãs fazerem silêncio. Afirmando que era tempo de mudanças, que chegava de tanto descaso. Já tinham trinta anos, pelo amor de Deus! Hora de fazer algo mais produtivo do que se pendurar na internet *olhada fatal para a Adolescente, e a Artista*, e que tinham que chegar a algum consenso. Pq, do jeito que estava, não dava mais. Mesmo a contragosto, a maioria concorda. A Advogada tinha razão. Devia haver mesmo um motivo para ela ser a dominante na área racional – ia até fazer uma pós-graduação, a danada... Mas de qualquer maneira, há um monte de ressalvas. Os escritos iriam continuar, assim como o RPG e os quadrinhos. Ainda que diminuíssem, sofressem atrasos. Caso a situação empregatícia se resolvesse, a Ama não ficaria tão estressada e a Amada poderia continuar com suas compras fúteis sem abrir um rombo no orçamento. A Ao Contrário faz um monte de observações cínicas as quais ninguém dá muita trela.
Ao fim da reunião, elas tomam seus frappucinnos, a tensão do encontro mais ou menos diluída pelas risadas e pela concordância. Uma a uma, elas vão indo. Menos a Artista. Ela checa o relógio e sorri. Era a hora dela, era a missão (e o prazer) dela escrever, relatar acontecimentos e urdir novas histórias. Assim, ela se ergue e segue as demais, seu cérebro se enchendo de frases e metáforas. As letras dançando de maneira harmônica e feliz. E aquilo a faz sorrir...
Ps: Vale a pena clicar na imagem e conferir os detalhes ...^^ O original dessas fotos pode ser visto aqui.