
Close my eyes start dreaming
See a vision filled with wings
Head my way
Feel the presence of unknown power
Telling me to come
This is the only way
It's a dream within a dream
Lost and lonely
Don't get pulled by the
Devil's hand
Nightmare it's got me runnin'
Nightmare it's calling you
Nightmare it's got me runnin'
Nightmare it's calling you
It's a dream within a dream
Lost and lonely
Lost forever
Don't get fooled
Black Sabbath - Nightmare
Madrugada. Lá fora, o calor impiedoso de verão, que se espalha pelo negrume da noite. Aqui dentro, a garota se revira na cama. De um lado para o outro, meio perdida num oceano de lençóis e travesseiros.Ela tenta se livrar deles, na esperança de respirar melhor. Esperança vã, pois eles envolvem seus braços e pernas, impedindo-a de escapar para o lado desperto. Mantendo-a cativa do Sonho.
Geralmente seus sonhos eram reflexos meio embaçados do seu cotidiano. Ou ela sonhava que estava de volta à escola – uma época mais feliz, com menos preocupações. Mas hoje, Sonho parecia querer usá-la como cobaia para novos pesadelos. Não compostos de imagens, mas de sensações.
Ela sentia o chão áspero sob os pés. Um peso que lhe toldava os movimentos. As unhas se fincando numa parede lodosa e nojenta. Ela estava agradecida pela obscuridade, pois a penumbra lhe permitia imaginar que aquela coisa gelatinosa era somente lodo. Não havia muita luz, ela não sabia para onde ia, nem onde estava... Só sabia que era mal iluminado e estranho, e que ela tivesse alguma coisa na cabeça além de vento, era melhor manter-se andando.
Andar. Não deveria ser difícil, não é? Um pé atrás do outro. Com ritmo. Coisa que ela conseguia fazer sozinha desde muito cedo. Então... Por que ela tinha a impressão de estar afundando em algo gelado a cada passo? E ela não parecia avançar... Aquele ponto de luz, fugidio, à distância, nunca mais perto.
Uma voz chama seu nome e ela volta a cabeça naquela direção. Uma não, duas... Várias. De pessoas que estavam enterradas no passado, de maneira simbólica ou literal. Gente que havia morrido na morte, gente que havia morrido em vida. Aqueles a quem ela deseja rever não pareciam felizes em chamá-la; aqueles que ela nunca mais queria ver soavam extremamente satisfeitos... Mais uma vez a sensação de urgência a consome: TINHA que sair dali. Simplesmente TINHA.
Seus movimentos vão ficando cada vez mais apertados por algum laço invisível. Como se algo estivesse lhe puxando mais para o fundo. Não fora fugitiva, em momento algum. Ratinha de laboratório presa dentro de um labirinto de cartas marcadas. Sem escapatória. Dedos descarnados roçam seu corpo com a zombaria gelada do ex-amantes. “Fique conosco...Fique”.
Ela abre a boca para berrar. Uma negativa, talvez. Seu grito morre na garganta. Um mundo de coisinhas brilhantes desaba sobre seu rosto. As coisinhas brilhantes tem asas e pequenas patinhas, que passeiam pela sua língua, fazem cócegas no fundo de sua garganta, o zunido das asas translúcidas que vibram enchendo sua cabeça, seu mundo...
A garota grita mais uma vez – só que essa é de verdade. Ela acorda com um repelão, presa pelos lençóis que são atirados longe assim que ela consegue se livrar deles. A mão no peito, tentativa de recuperar o fôlego roubado. Os olhos se movem pela penumbra, reconhecendo as formas familiares das coisas do seu quarto. Uma risada seca sai dentre seus lábios apertados... Nada de mais, só um sonho ruim.
Nada de mais, mas naquele resto de madrugada a luz do banheiro permaneceu acesa, uma lâmina amarela cortando o escuro da noite.