

Queen – heaven for everyone
Eram velhos amigos. Desses que estão na sua vida desde a mais tenra infância, que estão juntos desde sempre. Um não imaginava a vida sem o outro. Estavam presentes nas fotos, recordações, nas festas de aniversário. Haviam dividido puxões de cabelo, brigas pelo último pedaço de bolo, revistas em quadrinhos e discos de vinil (sim, ambos ainda eram da época dos bolachões pretos). Cresceram juntos, com aquela familiaridade peculiar aos amigos de infância. Haviam visto o melhor e pior um do outro, através dos anos.
Um belo dia, ele despertou com uma certeza cretina e dolorida – era apaixonado por ela. Provavelmente, desde sempre, desde que o seu jovem e imaculado coração abrigara pela primeira vez a garotinha de tranças presas por um laço de fita azul, sorrindo pra ele um sorriso meio desdentado e ainda assim lindo. Dizer que ele havia levado tempo para admitir isso era mentira – provavelmente, ele sempre soubera. Por que sempre existira algo dentro dele, mantendo a sua atenção e afeto na amiga, apesar dos óculos, dos aparelhos nos dentes e daquela fase que todas as garotas têm um corpo de ovo, sem cintura e sem definição de formas. Hoje em dia havia definição de sobra – e sim, a garota desajeitada se transformara numa mulher linda, confiante, capaz de andar em saltos altos sem perder a compostura. Ela não prendia mais os fios escuros em tranças, mas ainda gostava de azul. E tinha, como acessório peculiar, um namorado surfista, massoterapeuta e descolado, cheio de gírias e que chamava a humanidade inteira de “brou”. E ela era louca pelo infeliz.
Inferno, ele mataria para que ela lhe dedicasse o mesmo olhar de admiração que reservava ao surfista.
Infeliz com a admissão tardia, ele esfrega os olhos, resistindo à vontade de esconder-se sob os travesseiros e permanecer lá, tal qual um inseto sob uma pedra cheia de musgo. Mas não era um inseto, era um homem na casa dos trinta e tinha que enfrentar o mundo como... Um homem na casa dos trinta, ora essa. Com um suspiro – ser adulto era decididamente um porre – ele estende o braço, apanha os óculos de aros grossos e o mundo entra em foco. Junto com o mundo, entra em foco também um volumoso envelope marrom, pousado em lugar de destaque na mesa de cabeceira. A visão faz a garganta dele se estreitar. O timing da vida era mesmo exato e cruel...
Horas mais tarde, sentado numa mesa no café favorito, ele mexe sem vontade seu amor-perfeito. Talvez devesse ter escolhido outra coisa, já que qq prognóstico em relação à “amor” não era especialmente positivo, naquela manhã. Ele toma um gole e faz uma careta. Doce demais...!! Os vários pacotinhos de açúcar vazios atestam que ele adoçara demais a bebida, distraído e ansioso com a espera. De má vontade, ele empurra a xícara no momento em que ela entra no recinto, uma nuvem de ouro e pêssego e energia mal contida. Impossível olhá-la e não sorrir como um completo idiota. Ela se aproxima, envolvendo-o numa nuvem de Miss Cherie Dior e o cheiro dela. Cumprimentando-o com um beijo efusivo no rosto, beijo q ele queria muito que fosse nos lábios. Ela se acomoda, pede um cappucinno light e o fita com ar de expectativa...
Por um instante, ele não consegue entender o ar de expectativa. Saberia ela de algo?! Estaria feliz com isso?! Porém, o envelope marrom queima a sua memória. Numa voz sem emoção, ele começa a contar que havia recebido o resultado do pedido de bolsa. Havia sido aceito. Tinha um mês para apresentar-se na Universidade, praticamente do outro lado do mundo... Enquanto contava a novidade, a encarava com um mundo de desespero nos olhos escuros. “Me pede pra ficar que eu fico”, ele pensa de forma alucinada. “Me pede pra ficar, e eu chuto esse mestrado pra pqp, vamos abrir uma barraca de sanduíche natural e viver de felicidade e amor”.
Claro que ela não pede pra ele ficar e nem diz que tudo o que ela sempre quis foi ter uma barraquinha de vender sanduíche natural. Ela fica feliz por ele, por sua grande conquista. Diz invejá-lo pela chance de conhecer um país tão maravilhoso e o felicita com toda a propriedade e sinceridade reservada aos velhos amigos. Oferece ajuda para empacotar suas coisas, e que podem usar a pick-up do Duda, “Vc sabe, né? O Duda, meu namorado”. Ele segura a xícara e o sorriso plastificado no rosto a custo. Toma o xarope extremamente doce de café (agora frio) apenas para encher a boca e não falar nenhuma tolice. O açúcar desce grosso pela língua. Grosso como a sua decepção. Pena q não melhora em nada o sabor do seu coração partido.
Após algum tempo ela se vai. Prometendo ligar mais tarde, muito feliz por ele, etc, etc. Ele se despede dela mecanicamente. Sustentando a postura de “grande amigo que está feliz partindo por outro lado do mundo” da melhor maneira que pode. A porta se cerra atrás dela e o sorriso se cerra no rosto dele. Ele chama a garçonete e pede um Scottish Coffee. Mais Scottish, menos coffee. Ao diabo se era cedo ainda. Em algum lugar do mundo, já era hora do happy hour. Mesmo q no caso dele fosse sour hour...