
Long lost words whisper slowly to me,
still can't find what keeps me here,
when all this time i've been so hollow inside.
I know you're still there.
Watching me, wanting me.
I can feel you pull me down,
fearing you loving you.
I won't let you pull me down.
Watching me, wanting me.
I can feel you pull me down,
saving me, raping me,
watching me?
Evanescence – Haunted
Ela ergue o olhar para o horizonte. Na sua memória, o lugar era assustador e imponente. Ainda era assustador, mas deixara de ser imponente. Estava... Aparentando a falta de cuidados da qual fora vítima. Não, vítima não... Tal descrição jamais caberia àquela casa. Mesmo decaída, com a pintura branca arrebentada em feios veios negros, ainda guardava em si uma aura de ameaça silente. Como um velho capaz de lhe acertar pelas costas com uma bengalada.
O mato crescia de maneira selvagem, as árvores despidas de folhas aumentando o ar lúgubre. A moça ignorou aquela sensação de frio que crescia dentro dela, fechando o casaco com mais força e advertindo-se mentalmente que não era nada. Era apenas uma velha casa vazia e não poderia fazer-lhe mal. Se continuasse repetindo aquilo como um mantra, no fundo de sua mente, certamente acreditaria. Seus pés a levam por um caminho conhecido, mas que ficara perdido em sua memória por anos. Tendo apenas o vento passando pelos galhos secos e o som dos seus passos como companhia, ela se aproxima cuidadosamente dos degraus. Estavam afundados em alguns pontos e ela testa se agüentariam o seu peso antes de subi-los. A última coisa que queria era que algo na casa a machucasse, confirmando assim todos os seus pesadelos e impressões de que aquele lugar não só tinha alma, mas como era uma péssima alma. Talvez apenas refletisse a má índole dos seus moradores...
O contato da chave gelada entre os seus dedos a traz de volta à realidade. Ela destranca a porta principal com alguma dificuldade, e é recepcionada pelo som de dobradiças protestando e pelo odor de velhice, de coisas guardadas e não-ditas. Os móveis estavam cobertos por lençóis, as janelas estavam cegas, cobertas de pranchas de madeira que pouco deixava passar a luminosidade do dia. Havia poeira e aranhas haviam transformado aquele lugar em sua cidadela. Teias elaboradas e intrincadas espalhavam-se por todas as superfícies, pendendo do teto como pingentes cobertos de pó, que tremiam à medida que ela caminhava naquele mar cinzento, deslocando o ar que parecera estar morto por anos a fio.
O silêncio que antes a incomodara agora era encarado com muito mais relaxamento. Quase como um velho amigo. A casa estava vazia. Cada pessoa que assombrara a sua infância naquele lugar já havia se ido. Irônico que ela tivesse sido a única herdeira, no final das contas. Aquela residência amaldiçoada, cheia de pessoas infelizes vivendo suas vidas infelizes geração após geração. Ela temera não se livrar de tal desígnio familiar. O pensamento de que talvez não tivesse se livrado – e que a única razão pela qual a casa caíra em seu poder era garantir que ela também pagasse ali o tributo de infelicidade que era esperado dela – faz o momento de relaxamento sumir como se jamais tivesse existido. Ela sente a garganta se estreitar. Como ali poderia ser tão escuro se era dia claro lá fora?! A luz que vinha da porta parecia morrer e sumir, sufocada sob a aura escura e densa daquela sala...
Assim como ela mesma se sentia. Ela estava se sentindo sumir dentro daquele recinto, como se a pessoa que ela construíra para si tivesse ficado muito além do umbral daquela porta. Como se cada conquista e vitória perdessem significado e importância, transformando-a mais uma vez numa criança proscrita, indesejada, cercada de adultos que a tratavam como se ela fosse invisível, até que ela fazia algo indevido e isso despertava gritos e advertências e pancadas e....
Um som muito similar ao de uma risada rouca a sobressalta. Ela quase podia ouvir o manquitolar da velha tia q vivia no sótão, traçando o chão de madeira com sua bengala, um som metálico e cavernoso q a assombrara por anos... Ela se volta na direção da escada que conduzia o segundo andar, levantando uma nuvem de pó que a faz tossir e seus olhos lacrimarem. Quando ela reabre os olhos, percebe-se numa densa penumbra – onde estava a luz do sol que deveria entrar pela porta? Pq a porta estava fechada? E onde... Onde estava a maldita CHAVE?!
A parte adulta dela tenta se controlar – dizendo a si mesma, de maneira alucinada, que fantasmas não existiam, que portas não se fechavam sozinhas e que chaves não desapareciam no ar. Porém, a criança dentro dela estava prestes a explodir em lágrimas histéricas. Ela fugira, mas retornara, e agora eles a tinham encontrado... Ela sente toques suaves nos braços, nos cabelos. Dedos descarnados, de velhos, de cadáveres. Ela havia retornado, e eles lhe recepcionavam com seus sorrisos falsos, que ela vira descansar em copos cheios de água...
“Seja bem vinda de volta, queridinha. Vc não foi uma boa menina. Acho que teremos que corrigi-la, não é? Sempre sendo uma garota má. Sangue ruim, sangue ruim. Mas eu te modifico. A vara educa teu filho. Se tua mão pecar, corta-a fora e isso te fará puro aos olhos de deus. Eu faço isso para seu bem. Sangue ruim, sangue ruim... No fim, eu te transformarei numa boa pessoa e terei vencido...”
Ela grita. Mas não há ninguém lá para escutá-la.
PS: Orion, eu perdi o seu link com a formatação. Se ler isso e pensar em um meio de reenviá-lo p/mim, eu agradeço ....Bjs!