
A Deusa sem nome recebeu uma missão: conhecer uma nova pessoa. Achar mais um semelhante, entre tantos. Ela acena para os conhecidos e para os amigos, veste mais uma vez seu manto negro de estrelas e coloca o pé na estrada. O caminho tinha uma cor peculiar, meio verde (verde esperança), meio amarelo (amarelo-ouro, preciosidade aflorando à superfície). “Lugar nenhum não me cabe Lógica não me veste Sociedade não me sabe Religião não me pega Amor não me aprisiona Preconceito não me engana Tecnologia não me emburresse Dor não me enfraquece Amizade não me deixa Felicidade não me chega Música não me sai Sentimento não me comanda Ciúme não me comove Sexo não me basta Injustiça não me preenche Política não me agrada Esperança não me morde Destino não me domina Sonhar não me renova Critica não me enlouquece Escrever não me diverte Viver não me mata..” A Deusa arregala os olhos diante de tal descrição. Através das letras negras no fundo de bronze, ela vê personalidade e força, delicadeza e amor, saliva em beijos hesitantes que se tornam famintos. Corpos que se movem ao ritmo da música – música, que ali tudo permeia, até as letras sem melodia, em forma de poemas, histórias de amor cifradas. A Deusa admira aqueles capazes de cometerem poesias, sendo esse um talento tão distante dela mesma. Pois Poesia não se aprende, se comete, crime perfeito que toca o coração sensível das testemunhas. Mas, apesar da beleza, a Deusa vislumbra uma pontinha de dor – confirmada pela borboleta azul que paira à sua volta, pousando finalmente na mão que tateia as letras com aquele cuidado de quem toca coisas que não são suas, sem permissão. Ali também havia dor, como em todos os lugares. Mas também havia fogo, calor e especialmente esperança. A identificação provoca um meio sorriso na Deusa. Encontrara mais uma alma irmã, embora os meios de expressão fossem outros. Ela já estava pronta para se afastar em busca da senhora daquela seara quando a estátua toma vida. A dançarina vibra suas asas carmim, completa o movimento ascendente, rodopia lentamente sobre um pé descalço e então baixa o olhar, do alto da coluna, para a recém chegada, que era uma estranha... Mas uma estranha vagamente familiar... “Sou o Anjo Rubro, a Dançarina. Pois vermelho é a cor do coração, tingido com o dourado da preciosidade e o verde da esperança, e dançar é fazer amor com o Universo. Quem é você, e como chegou aos meus domínios?” “O meu nome não importa, dançarina dos céus. A Walkyrie indicou-me o caminho, e a sorte me escolheu para conhecê-la e oferecer-lhe com um presente”. De dentro do manto, a Deusa colheu um pequeno orbe, tingida com as cores do pôr do sol, que cheirava como a chuva, brilhava como o vento e era suave ao toque como um beijo carinhoso. A mão pálida estende o presente. Quando a Dançarina o segurou em suas mãos, o objeto fez um barulho estranho e provocou-lhe sensações inesperadas... Riso, compreensão, surpresa. “O que é isso?” “O orbe é a minha amizade” A deusa explica, levemente tímida – parecia tão estranho sair ofertando a sua amizade por aí. “E dentro dele, estão pílulas. Pílulas de sabedoria. Podem ser doces, ou tristes, ou engraçadas, e estão à disposição de quem as quiser, em meu reino”. Nossa, aquela explicação parecia MUITO tola, dita assim, em voz alta. Torcendo para que a Dançarina não a achasse uma maluca sem noção, a Deusa recobre a cabeça com o seu manto e completa: “Se assim o teu coração rubro desejar, faz-me uma visita. O meu Reino não há muita poesia, mas adoramos contar histórias. E todos os amigos da Walkyrie são bem vindos ao meu reino”. A deusa deposita um beijo suave no rosto da Dançarina, despedindo-se com um sorriso, e com a firme esperança de ter encontrado mais uma amiga... PS: Esse texto (que, para fazer mais sentido para os recém chegados, deve ser lido depois desse aqui) é o meu presente do Amigo secreto do “Bairro Chamado Felicidade”. A sorte me destinou a Angel, e eu tive o prazer de fuçar seus escritos para me inspirar a escrever esse texto. Moça, eu gostei muito de visitar seu Blog, embora Poesia não seja meu forte... Mas eu sei apreciar algo bonito quando colocam na minha frente! Voltarei a lhe visitar mais vezes, e o mesmo vale para você: será sempre muito bem vinda ao meu Reino. Feliz Natal e um excelente ano novo, cheio de escritos, para todos os meus vizinhos de bairro e um desejo especial para você, Ana P.!