Somethin's wrong
Ya just don't sound the same
Why don't you
Go outside
Kiss the rain
Whenever you need me
Kiss the rain
Whenever I'm gone, too long
If your lips
Feel lonely and thirsty
Kiss the rain
And wait for the dawn
Keep in mind
We're under the same sky
And the nights
As empty for me, as for you
If ya feel
You can't wait till mornin'
Kiss the rain
Billy Mayers - Kiss the rain
Sexta à noite. Quente, abafado, como são as noites no fim do ano. Meio de dezembro, época de todos aqueles zilhões de reuniões pré-natalinas. Tinha a do pessoal do trabalho, a do pessoal da academia, do condomínio... E a dos velhos amigos. Aqueles que passavam o ano inteiro trocando telefonemas, emails e visitas esporádicas, se esbarrando no supermercado e dizendo “temos que nos ver um dia desses”! O dia tinha chegado, junto com cidra geladinha, salgadinhos gostosos e um cheiro do peito de peru à Califórnia (que era a especialidade da anfitriã) espalhando-se pelo apartamento, junto com as conversas e risadas.
A moça termina o seu vinho, e a anfitriã logo enche novamente a taça. Vermelho, denso, de odor convidativo que a lembrava de outras noites, que começavam com o oferecimento de uma taça e terminavam em peles suadas e gemidos, e aquela sensação de estúpida saciedade. Seu sorriso se desfaz e ela abana a cabeça em negação. Pq diabos estava se lembrando daquilo?! Aquela história já havia terminado faz tempo. Morta e enterrada, e deveria permanecer assim. Resolução de pré-natal – não pensar mais naquele idiota. Ela empurra o xingamento doído com um gole da bebida. Ainda doía pensar no idiota. Um burburinho na porta de entrada, ela ergue os olhos e quase cospe o vinho na parede branca. Aquilo sim era o poder do pensamento negativo – pois o idiota, em carne e osso, músculos e sorriso hesitante, cabelo curtinho e com o pescoço cheirando a Pólo, estava na porta falando com o namorado da anfitriã, segurando nas mãos uma garrafa daquele vinho branco doce e meio vagabundo que, em segredo, ela adorava. Indignada, ela puxa a amiga pra dentro da cozinha e, em sussurros raivosos, questiona o que o idiota estava fazendo ali. A amiga tenta se desculpar, jogar a culpa pra cima do namorado, mas em vão. A noite estava oficialmente arruinada.
Atirando o cabelo meticulosamente liso para trás, ela se veste com sua armadura. Não ia mostrar o quanto aquilo a afetava, não senhor. Ia ser segura, linda e esfregar toda a sua felicidade na cara do cretino. Isso mesmo. Difícil seria engolir o peito de peru e a farofa com a garganta tão apertada. Mentiria que estava de dieta, embora ninguém cometesse tal heresia em pleno Dezembro. Ela de fato, consegue sustentar seu plano a maior parte da noite. Ignorando aqueles olhares longos que o idiota lhe dava, reduzindo seus joelhos à cera meio derretida. Rindo mais alto do que gostaria, tocando mais ombros do que tocaria se ele não estivesse lhe perseguindo com o olhar. Até que enfim dá uma hora decente para ela ir embora. Despede-se da anfitriã, fuzila com o olhar o namorado desta e acha que escapou. Engano. Antes da porta do elevador se fechar completamente, ela consegue vislumbrar o idiota vindo pelo hall, virando caçador.
Seus olhos fitam os números luminosos do painel do elevador, orando em silêncio ao deus do maquinário para que a deixasse escapar dali com sua auto estima quase intacta. Que ele não conseguisse alcançá-la, que não a visse sumir na rua e da sua vida mais uma vez. Quando as portas se abrem no térreo, ela sai meio às cegas... E é recepcionada por uma daquelas chuvas torrenciais tão comuns em dezembro. Ela fita o céu com ar incrédulo. Até tu, Brutus?! Agora não era só fugitiva – era uma fugitiva encharcada, de chapinha arruinada e maquiagem escorrendo. Para completar, ela escuta a voz conhecida, a voz que a assombrava em sonhos tórridos, vívidos, que ela adoraria chamar de pesadelos...
- Espera... Por favor, espera...!!
Contra todos os sinais de alerta gritando em sua cabeça, ela esperou. Sob a chuva. Voltando-se para ele devagar, a água escorrendo pelo corpo,pingando de seus cílios, empoçando dentro de suas sandálias. Atrás dela, ele estava parado sob a proteção de um guarda chuva. Até perseguindo-a o idiota era prevenido, e ela o odiou por isso. Mas, mesmo protegido, ele não parecia muito confortável. Ao invés de dar um passo adiante e colocar o objeto entre ela e a chuva, ele a fechou com um gesto elegante. Ficando sob a chuva com ela. E assim ficaram por alguns momentos. Como se a chuva fosse necessária para limpar os humores, abrindo caminho feito enxurrada nos corações hesitantes. É, por que ele também hesitava, sorrindo vacilante, esperançoso, sob as gotas. Que eram quentes como o calor que fazia em dezembro.
Olharam-se sob a cortina cinza. E ele começou a falar. A pedir desculpas, a dizer que tinha entendido seu erro. Que estava arrependido, que a queria de volta. Que, se ela pudesse perdoá-lo... A chuva engoliu as palavras, mas ainda assim elas chegaram ao coração dela. A moça meneou a cabeça, incerta. Querendo e não querendo. A decisão foi tomada quando ele espirrou sob a chuva, a roupa molhada no corpo fazendo efeito. Aquele espirro quebrou sua armadura. Tonto, ia acabar pegando uma gripe. Xingando-o docemente, a moça o atraiu para si. Aquecendo-o com seu corpo, curando o resfriado com beijos. Se ficassem doentes depois do episódio romântico (“patético, mas romântico”, ela diria com ar de falsa crítica) ao menos estariam juntos...