

Meu pai era uma pessoa muito especial. Por conta dele, é improvável que eu encontre um marido que preencha as minhas expectativas. Pois, se toda garota deseja casar com o próprio pai, onde eu vou encontrar um homem inteligente, fiel, culto, trabalhador e de mente ágil que nem ele?! Ele já era um artigo raro, espécime único, quando se casou com a minha mãe. Aliás, passaram mais de 50 anos casados. Quão excepcional é isso?
Assim como eu, ele era o caçula. Assim como eu, amava os livros - cedo arruinou a visão lendo à luz de velas e correu o risco de virar padre pq, naquela época, o seminário era uma possibilidade acessível ao estudo de alto nível. Assim como eu, ele era advogado, mas queria ser mais. Assim como eu, se distraía escrevendo, adorava conversar, falava pelos cotovelos. Assim como eu, ele adorava fantasiar, planejar, sonhar um mundo melhor e se perder em "viagens" intelectuais.
Graças ao meu pai, tive o privilégio de crescer achando que cultura era artigo de cesta básica, que os livros estavam lá para serem lidos, que qualquer linha de pensamento era válida, e que todas as famílias eram como a minha - com pais que gostavam de dividir beijos, abraços e palavras com os filhos. Que qualquer assunto podia ser abordado, que não existiam perguntas inúteis, que não havia problema em gostar de arte e onde "não" era "não".
Muita coisa mudou agora que ele não está mais aqui. Nada para melhor, óbvio. Coisas foram ditas e feitas, atitudes se transformaram e máscaras caíram. Foi um empurrão impiedoso num mundo adulto e estéril, onde não há mais "causos do Sapé" e nem a xícara marrom dele à mesa do jantar. Com a inflexibilidade que só a vida e a morte têm, ficou claro que ele era o eixo dessa família. Sem ele, todos nós nos tornamos um pouco mais estranhos entre si. Se alguns laços se reforçaram, outros se desfizeram de maneira brusca, como se jamais houvessem existido. Constatar isso é triste e dolorido, e só aumenta a dor que a ausência dele traz.
É estranho. Ou talvez apenas eu seja estranha. Mas, às vezes, eu vejo uma cabeça branca, uma blusa xadrez,e meu coração falha uma batida, suspenso no tempo num momento longo demais. O chamado de "pai" some antes de se formar, pois não é ele. Mente perigosa, pregando peças numa alma que ainda não crê completamente na perda. E como dói constatar que não é ele, que jamais será ele.
Não sou a pessoa mais religiosa do mundo, longe disso. Mas se os espíritas estiverem certos, e as pessoas que amamos nos recepcionam do outro lado, eu terei a chance de vê-lo mais uma vez. E por isso, eu não tenho mais tanto medo.
Ah, pai, eu sinto sua falta. Eu só queria que não doesse tanto. Que não fosse tão duramente definitivo, tão pétreo e imutável. E que o Verbo ainda fosse Vida...