Era uma vez uma princesa. A natureza, e não uma fada, a dotou de grande inteligência, amor pelas artes e lindos, fulgurantes, cabelos vermelhos. Por tudo isso, ela se destacava das demais filhas da realeza, todas loiras e vazias. Ela foi crescendo em idade e em sabedoria, amada pelo seu povo como a jóia mais preciosa da realeza daquele lugar.
A família real, claro, sentia orgulho da princesa. Quando esta atingiu a idade de se casar, procurou por todos os reinos, até os mais longínquos, por alguém digno da mão da princesa. Alguém que soubesse valorizar todos os seus atributos. E assim, foi designado um príncipe de terras desconhecidas, mas das quais se falavam mtas maravilhas.
Quando o séqüito do príncipe chegou à corte, todos ficaram impressionados com toda a pompa e riqueza que ostentava. Cavalos de puro sangue, tocadores de flauta e cítara, todos usando trajes de seda com finos bordados, presentes ricos e encantadores como ninguém jamais havia visto. E o príncipe em si também era uma bela surpresa: tão moreno quanto a princesa era ruiva, olhos e cabelos escuros, o rosto delineado por um belo cavanhaque, mostrava força e poder sob as roupas finas. Só que, mesmo com toda a celebração por conta da sua chegada, a Princesa notou que o príncipe jamais sorria. Ou, pelo menos, não sorria para ela...
Durante a ceia daquela noite, a princesa esforçou-se para demonstrar suas qualidades ao futuro marido: discutiu poesia, comentou sobre os novos tratados de negócios e até sobre a qualidade dos rebanhos do reino. Porém, a cada comentário que ela emitia, a expressão do príncipe ia ficando mais e mais carregada. E a princesa ia ficando mais aflita. Estaria falando bobagens? Deveria ela ser mais brilhante na frase seguinte?! Por mais que ela tentasse, nada parecia adiantar. Por fim, no final do jantar, muito tenso, o príncipe a convidou para dar uma volta pelos jardins. Ela tentou ignorar a maneira como seus sentidos se alertaram quando ele a tomou pela mão. Sentia algo muito similar ao medo. Mas não havia razão para ter medo do seu futuro marido, não é?
Quando ficaram convenientemente distantes dos olhos e dos ouvidos da corte, o príncipe largou os dedos da princesa e disse, num tom de voz frio:
“As mulheres devem ser belas por que elas existem para serem vistas, e não ouvidas. Eu não me importo com a sua opinião. Aliás, você não deve ter uma opinião. A minha opinião será a sua. Ocupe-se com seus bordados e vestidos, que das coisas que realmente importam, cuidarei eu. Não quero ter que repetir esse aviso novamente”.
A afronta de tal afirmação fez a princesa engasgar. Fora criada sendo valorizada por seus pensamentos e palavras, e não apreciava a idéia de ser transformada em um adorno, uma boneca sem cordas para ser exibida. Habituada a dar voz aos seus pensamentos, ela deixou claro o seu desagrado:
“Se é um brinquedo e não uma companheira que deseja desse casamento, meu senhor, temo ter que rejeitá-lo. Não caminharei atrás de homem algum, como alguma serva ou um dos seus animais de estimação. Tenho as minhas próprias idéias, e elas vibram, independente de qualquer pessoa além de mim mesma”.
A negativa firme pareceu aborrecer sobremaneira o príncipe. Seus olhos escuros ficaram sanguíneos na penumbra, e ele segurou a moça pelo braço sem nenhum traço de gentileza:
“Essa idéia tola de independência envenena as mulheres e, pelo jeito, fez mais uma vítima. Se você não quer caminhar atrás de mim, se quer dar voz ao que lhe passa pela cabeça, talvez não seja adequado ser uma princesa”.
Tarde demais, a princesa percebeu que o príncipe era mais do que o seu exterior belo e suas idéias rudes – o homem moreno era também um mago. Um mago que recitava palavras mágicas antigas e obscuras enquanto a segurava com mão de ferro. A moça viu-se incapaz de gritar, atônita, enquanto seu corpo parecia murchar e diminuir, mudando de forma, a pele se franzindo e se cobrindo de penas...
Quando o príncipe terminou de recitar seu feitiço, tudo o que restara da princesa fora a sua tiara, caída no chão. Entre os dedos cruéis do homem, havia um pássaro vermelho, de plumagem brilhante e expressivos olhos verdes que o fitavam com o franco terror de um animalzinho preso em uma armadilha.
“Eis aí como você dará voz aos seus pensamentos, cara Princesa. Cante seu desespero, sua dor e suas bravatas de igualdade, e encante quem a ouvir, pois ninguém está interessado no conteúdo, apenas na forma. Quando conheceres alguém que deseje ouvir suas idéias, o encanto se quebrará. Mas claro, isso jamais irá acontecer – quem quer saber o que um pássaro, ou uma garota tola, pensam? Ninguém. Estará condenada à esta forma por tua própria arrogância”. O Príncipe libertou a princesa pássaro, fitando-a com um olhar sardônico antes de voltar para o palácio, gritando em altos brados que a sua noiva simplesmente desaparecera no ar, deixando a princesa, trêmula em suas delicadas patinhas de garras agudas e apavorada com a sua nova condição.
Ps - Continua amanhã...