

Ainda surpresa com a atenção que lhe era dedicada (tão diferente das usuais), o olhar da princesa – pássaro recaiu sobre o autor das palavras inesperadas. Pela cama suntuosa e por todos os adereços, ela reconheceu que o rapaz pálido, deitado contra uma pilha de travesseiros, era tão da realeza quanto ela fora, um dia. E sim, ele também parecia doente, olheiras fundas circulando olhos da cor do céu q ela agora conhecia tão bem. Parecendo sentir a sua hesitação, ele deu um sorriso fraco:
“Não precisa ter medo de mim. Estou confinado a esta cama e não lhe faria nenhum mal. Já fui arrogante e autocentrado, mas a doença afasta os falsos amigos e as canções de amor. As pessoas não gostam de se juntar com os fracos. Infelizmente eu só compreendi isso depois de me tornar um deles... Pode chegar perto”. Ele informou com naturalidade, como se fosse comum falar com pássaros. A princesa ainda hesitava, mesmo tocada pelas palavras solitárias. E assim, se aproximou devagar, piscando seus olhos verdes com a atenção focada nele. E ele, provavelmente incentivado por essa mesma atenção, continuou a falar. A contar como fora parar naquela cama, o resultado cruel de uma disputa tola.
Lutara para conquistar um prêmio, uma princesa tão fútil qto ele mesmo fora. Porém, quando ele perdera para um cavaleiro mais forte e experiente, todas as promessas de amor se mostraram vazias. Se ele não era forte o suficiente para lutar por ela e vencer, não lhe servia. E a amarga decepção, bem como o reconhecimento de suas aspirações vazias, haviam enfraquecido tanto seu corpo qto seu espírito. Agora, ele estava ali, peça inútil no jogo de xadrez do poder e dos relacionamentos. A sua própria superficialidade o havia conduzido até ali, e ele simplesmente não via escapatória... “Fale-me do mundo lá fora, belo pássaro. Talvez no seu canto ele fique mais bonito, menos vazio”. Comovida com o pedido, a princesa cantou. Não mais suas próprias dores, mas uma canção feliz. Entre ela e o príncipe doente já havia dor demais...
Os dias foram se passando. A princesa sempre vinha à janela, era sempre recepcionada com um sorriso pálido. Ela cantava, mas ele ficava cada dia mais doente. O único momento que ele parecia se animar era quando ela surgia. E cada vez mais, a princesa se viu triste e preocupada com ele, chegando a esquecer o próprio infortúnio em detrimento do dele. Ela desejava fazê-lo feliz, e por isso queria se superar, cantar cada vez melhor, para alegrá-lo. A cada dia, ela se aproximava mais dele. Ele roçava o dedo na penugem rubra de sua cabeça e sorria. Mas ainda não era o suficiente...
Um certo dia, ele parecia estar especialmente mal. Quando a princesa pousou perto dele, ele se esforçou em dizer:
“Fui desenganado. É apenas uma questão de aguardar, agora. Pena... Como eu gostaria de saber o que você pensa da vida, pequeno pássaro. O que vc vê de tão belo nela que te faz cantar...”
A notícia fez o frágil coração de pássaro da princesa se encolher. A parte humana dela queria gritar e chorar em negação, mas ela não podia. Só lhe restava fazer uma coisa – cantar. Cantou a mais bela canção na qual pode pensar, querendo fazê-lo feliz, querendo fazê-lo sorrir mais uma vez, deus, por favor, só mais uma vez. A mão trêmula se ergueu, o polegar roçou as penas vermelhas e ele sorriu:
“Se ao menos eu pudesse saber o que vc pensa... Tenho certeza que seus pensamentos são tão belos quanto a sua música, e que o seu coração é rubro e caloroso como a cor de suas penas. Queria tanto ouvi-lo falar acerca de como vc vê a vida, essa vida triste que parece ser bem mais bonita quando vc a canta”. O príncipe disse as palavras com a voz sumida dos que estão morrendo. E assim, ele fechou os olhos e expirou. E não viu diante dele o pássaro se converter numa linda princesa ruiva, cujo coração fora curado por sua gentileza apenas para ser partido mais uma vez por sua inflexível ausência...
A princesa se desesperou. Atirou-se, alucinada, sobre o corpo do príncipe, querendo arrancá-lo das garras da morte. Chorou e rogou, praguejou e amaldiçoou, e nada. A presença de uma terceira pessoa naquele quarto a fez erguer os olhos chorosos para a porta. Para sua absoluta surpresa, lá estava o homem moreno que a fizer passar por todas aquelas agruras, observando acena com expressão pensativa...
“Então você achou alguém que queria ouvir o que vc escutava. Venceu meu desafio, reconquistou seu corpo e sua voz. Talvez mereça um prêmio além deste que já tem – não é todo dia que me vencem”, disse o mago com uma voz de quem ruminava idéias.
“Traga-o de volta, por favor”.
“Nem eu posso vencer a morte, cara dama”.
“Você é um mago poderoso, faça algo!”
“Pois bem, farei.” O mago fez um gesto no ar. Sobre a cama, não havia mais uma princesa chorosa e um príncipe morto, mas um casal de pássaros vermelhos. De penas luxuriantes, rubras como sangue, como o amor. “Vão e cantem para si e um para o outro sua felicidade, que pode ser apreciada, mas dificilmente entendida pelas demais pessoas. Pois nessa terra será raro existir alguém como vocês, que conseguiu ver mais do que os olhos vêem, ouvir mais do que as palavras dizem, compreender mais do que falam os gestos.”
O mago acompanhou com o olhar os pássaros alçarem vôo e sumirem na linha do horizonte. O canto sobrenaturalmente belo se elevando e se espalhando pelo céu. Aquele canto o assombraria por muito tempo, e após esse dia, não foram poucas às vezes em que ele despertou com aqueles sons na memória, e o desejo de ser como aqueles pássaros em seu coração. De ser apreciado na por sua forma, mas sim , por seus pensamentos...
Obs: Esse final ficou bem mais melancólico do que eu previ O.o’.E em breve teremos um breve ensaio sobre o que é arte (como sou atrevida...Kkkk!). Ah,e mil desculpas pela demora à postar algo novo. A vida real está me enlouquecendo... mas eu sei como é chato qdo a gente vai na esperança de ler alguma novidade e só encontra desculpas. Vou tentar voltar a postar mais regularmente, para felicidade geral da nação bloggueira.Bj!