
Às vezes eu paro e penso como seria ser igual a quase todo mundo.

Talvez fosse mais fácil. O conforto do anonimato, a segurança dos números, a não-necessidade de pensar muito sobre nada e simplesmente seguir o bando.
Ouvir as mesmas músicas que as amigas. Dividir com elas o gosto por roupas da moda, por homens, por cor específica de cabelo, por tostar no sol da praia sem proteção, ir ao forró mais animado e tomar cerveja quente como se fosse algo glorioso. As amigas poderiam mudar, sumir, claro; não faria muita diferença, pois logo outra muito similar tomaria o lugar da ausente. Entender o frêmito consumista de TER que possuir uma determinada bolsa, ou saia, ou sapato. Captar a importância de encher a cara e trocar fluidos corporais com pessoas q, em qualquer ocasião lúcida, não se chegaria nem perto. Aprender a desconsiderar o fato de que os membros do bando não só também são pessoas de que ninguém com 7 neurônios se aproximaria, mas que o bando não tem ocasiões lúcidas tampouco. Arrumar um namorado que paga quando vocês saem juntos, que some com o seu bando de amigos chatos e bêbados nos fins de semana e com quem de vez em quando vc tem um sexo morno com sabor de pizza requentada – mas que vc dirá à suas amigas que é incrivelmente selvagem. Ter um trabalho para o qual vc não liga a mínima (e a relação dele com vc mantém esse sentimento de forma recíproca), que não te realiza nem satisfaz. Enfim, viver uma vidinha de merda, que nem a do bando, até que um belo dia acaba.
Porém, eu sou diferente. Fui educada para apreciar a diferença, ver isso como algo positivo. Sempre fui diferente, não é de hoje. Gosto de cinema, livros, filmes, o som de línguas estrangeiras e analisar peças de arte. Escuto de Frank Sinatra à Ramnstein. Não me importo com griffes de roupas, com cor de cabelo. Dificilmente vou à praia, não gosto nem de forró nem de pagode, uso bloqueador solar sempre que saio de casa. Tenho poucos amigos, que são tão diferentes de mim qto eu gostaria, e deve ser isso uma das vigas mestras que mantém as nossas amizades se sustentando por anos. Detesto cerveja, nunca fiquei embriagada na vida. Não uso drogas. A única coisa que me provoca ânsias consumistas são livros, e ninguém pode dizer que isso é futilidade. Sou tímida nessa história de “ficar”, e velha demais pra saber como fazer isso de maneira tão banal. Gosto de conhecer a pessoa a quem vou beijar, saber suas preferências antes de conhecer seu sabor. Acho sexo casual vazio e amargo. Quero mais que alguém pra rolar numa cama, quero um companheiro de todas as horas, com quem eu possa conversar sobre tudo e sobre nada, com quem eu possa caminhar de mãos dadas e fazer essas coisas que as pessoas q se sentem confortáveis umas com as outras fazem. Quero amor e tudo o que isso engloba. Quero um trabalho que me permita viver fazendo algo que eu gosto. Quero descobrir algo que eu gosto... E me realizar.
Decididamente seria mais fácil ser um do bando. Mas não é mais recompensador ser diferente?
A pílula de sabedoria de hoje é: seja vc mesmo. Pode não ser simples, ou leve, ou um passeio no parque, mas ainda assim é mais valioso do que seguir o bando. Pensar por sua própria cabeça pode ser traumático às vezes, mas em algum momento, a certeza de ter feito isso será uma grande força.