
Algumas pessoas já me disseram, nesses 30 anos de permanência nesse planeta, que eu sou uma pessoa difícil de conviver. Que eu sou teimosa demais, cabeça dura demais, arrogante demais e que tenho esta mania terrível de achar que eu sei de tudo o tempo inteiro. Bem, provavelmente eu seja tudo isso mesmo, mas não de maneira tão grave quanto possa parecer. Eu admito, eu era uma criança irritante. Decididamente metida à sabichona. Mas pensa bem. Acima do peso, usando óculos e passava horas na biblioteca, lendo ou desenhando. Alguém com uma personalidade menos agressiva seria sido usado de saco de pancada. Pra minha sorte (digamos assim), eu também era uma peste. Se alguém me provocasse eu não hesitava em provocar de volta, e não poucas vezes usei os punhos em defesa própria (nunca bati primeiro, mas revidava sempre...). Na quinta série, eu quebrei o nariz de um colega com um soco. Digamos que ele fez por merecer. Mas ninguém esperava que a nerdzinha da sala caísse de pancadas em cima de alguém. Essa atitude permaneceu na adolescência e por boa parte da vida adulta. Ironia, sarcasmo, eram (ainda são) comigo mesmo. Se eu fosse um personagem, eu seria a gótica-no-canto-que-fica-fazendo-comentários-sacanas-e-brilhantes. Porém, apesar disso, eu me tornei também a pessoa com a qual as outras sempre podiam contar. Eu bufava e reclamava, mas sempre ia ajudar alguém a sair do sufoco. Mesmo xingando a estupidez da pessoa em questão, o infeliz sabia q teria alguma ajuda... Irônico mesmo é que nunca ninguém tenha diretamente percebido que todo esse “one woman show” de “sou esperta, danada e fodona e sei mto mais do que vc em qq dia da semana” não era nada mais que uma armadura. Uma carapaça bem trabalhada desde sempre, pra ocultar uma alma sensível até demais, que se emociona com as coisas mais toscas, os filmes mais lacrimosos e os comerciais de tv mais premiados. Uma alma que demora a entregar sua confiança, mas quando isso acontece, é de maneira integral. Uma alma que quer que o seu receptáculo seja de fato uma boa pessoa, que sinceramente se preocupa com aqueles à sua volta, até aqueles que ela não conhece pessoalmente. Uma alma que se machuca com uma facilidade estúpida e que termina, apesar da mágoa, revidando a dor... Há um monte de boas razões para a carapaça,afinal. Mas o escudo, simplesmente por existir, não deveria ser uma razão para que as pessoas se mantivessem longe. A pílula de hoje também é um upper (eu ando de bom humor, ultimamente...): veja além das aparências. Leia nas entrelinhas. As pessoas deixam entrever a sua verdadeira personalidade (para o bem e para o mal) em gestos pequenos. Nem sempre a primeira impressão é a mais correta. Aceite os desafios, e descubra as doces surpresas que podem existir ocultas por uma superficial aspereza. Afinal, um pedaço feio de carvão pode ocultar um diamante perfeito...