
As pessoas que conversam comigo frequentemente devem ter notado q eu ando meio irritadiça nos últimos tempos. E não é só por conta da pressão dos concursos e da dor nas costas não... Eu tive uma noite de insônia e calor e acabei percebendo o que era. Eu sinto falta do meu pai. Ele faleceu a cerca de um ano e meio atrás, e a ficha ainda não caiu completamente. Eu participei do funeral todo, vou ao cemitério às vezes, mas a maior parte de mim simplesmente não consegue ligar um fato ao outro. Nós éramos muito próximos. Unidos pelo amor aos livros, pelo amor à palavra, pelo amor à fala e especialmente pelo amor a uma boa risada, e, bem ou mal, pelo Direito. Ele morria de orgulho que um dos seus filhos tivesse a mesma profissão que ele. Cúmplices. Ele adorava me comprar livros e ver a minha expressão desembrulhando o pacote. Ele gostava de ir tomar sorvete de Doce de Leite e me comprar quadrinhos. Nos últimos tempos, eu tinha me tornado sua motorista particular, sua condutora. Ele já não enxergava direito e não podia se mover com facilidade. Teimoso, tentava sempre escapar de nossas mãos, se irritava com o nosso cuidado. À medida que foi perdendo a visão, foi se tornando cada vez mais frustrado, pois não podia mais ler. A depressão finalmente encontrou o meu pai no fim da vida e, de certa maneira, foi isso que o matou. Ele estava simplesmente cansado... Cansado de não poder fazer o que desejava, de ficar trancado naquela UTI sem poder falar livremente e longe dos seus. Eu me lembro de passar horas naquela sala de espera, para vê-lo por 3 minutos. Nunca disse tanto q o amava como naqueles três longos meses. Ele descansou, afinal, mas eu egoisticamente, preferia que ele tivesse permanecido aqui, conosco. Não é esse o grande problema com a morte, afinal? A questão não é para quem morre. É para quem fica para trás. Droga, tanta saudade não pode fazer bem. E a minha pílula de sabedoria de hoje é: nunca perca a oportunidade de dizer a uma pessoa que vc a ama. Vc nunca sabe, nunca mesmo, quando será a última chance de dizer isso. Clichê?! Sem dúvida. Mas quando foi a última vez que vc virou para alguém e disse “eu amo vc”, assim, do nada, gratuitamente? Eu aprendi isso da pior maneira, temendo que cada vez seria a última... Até que, realmente, foi.