

These foolish games
Impassível, ele a observa arrumar a mala com gestos casuais. Impassível por fora. Homem não chora. Não? Por dentro, tudo doía e se quebrava, se retorcia de maneira inevitável. Assim era o fim. Não tinha estrelas caindo dos céus nem a terra tremendo, mas ainda assim, era o fim...
Ele permanece lá. Braços cruzados, os olhos fixos nas mãos que se moviam, determinadas, pelo quarto. Mãos pálidas, de dedos longos e estreitos, unhas compridas. Ele gostava daquelas unhas se afundando em suas costas, no momento do clímax. Não haveriam mais arranhões satisfeitos e reclamações que a sua barba mal feita arranhava. Não. Havia lingeries voando para dentro daquela mala de maneira desordenada, misturadas às camisetas amassadas e aos cds colocados de forma cuidadosa. Ah, com os cds, ela se importava. Ele tem inveja das caixas de acrílico. Seu próprio coração não merecera tanto cuidado, atirado à um canto em meio aos destroços. Gritando o que ele não poderia gritar, tolhido pelo seu cromossomo Y, por séculos de civilização e sociedade e modos. O que diriam os espartanos, se soubessem da sua vontade de chorar, de implorar, de amar e odiar aquela cretina com todas as suas forças...? Provavelmente lhe dariam uma mostra das muitas razões pelas quais os homens não choram.
As mãos que antes o tinham acariciado apanham um cigarro e um isqueiro. Mulher transformada em hidra de uma única cabeça e garras afiadas. Dragonessa, Dragão-Condessa. Soltando fumaça pelas narinas. Como um gesto tão politicamente incorreto, tão pouco saudável, podia ser tão sexy? Mas podia. E daí se a nicotina devorava devagar a carne dos pulmões femininos, se o cigarro tinha veneno pra rato na sua composição e ele odiava aquele inconfundível odor de cinzeiro...? Ele se sentia virar fumaça qdo ela fazia aquilo. Fog londrino em questão de segundos. Enevoando seus sentidos, sua consciência. Só não enevoava aquela vontade dela. Aquela vontade que nunca se satisfazia... Que nunca seria satisfeita novamente, pelo jeito.
Ela o fita como se ele fosse um inseto particularmente asqueroso. A sua única, patética resposta, é cruzar os braços com mais força. Em silêncio. De alguma maneira, sua ausência de palavras parece confirmar todas as teorias e acusações dela – ela revira os olhos de maneira eloqüente, prende o cigarro entre os dentes e, com um ruído abafado, empurra a tampa da mala para baixo. O som do zíper se fechando é alto demais dentro daquele vácuo de palavras – parecia soar como uma sentença esganiçada de morte. Mais uma vez, o fim.
Ela diz algo – que não era nada do que ele queria ouvir, então ele simplesmente ignora. Ela empunha a bagagem como se fosse uma arma, e os saltos altos fazem toc-toc à caminho da porta. O som não muda quando o bico fino de seu caro sapato de griffe se finca no que restara de seu coração e o chuta pra debaixo da mesa do computador como se não significasse coisa alguma. Provavelmente pq não significava mesmo.
A porta se fecha. E ele se rende, finalmente compreendendo. Não é que os homens não chorassem. É que eles sempre choravam sozinhos...