
Sou só eu ou "The Runaway Muses" parece nome de banda de rock dos anos 80?!
I wanna kiss you in Wanting, needing, waiting Yearning, burning Madonna - Justify my Love Luxúria. Desejo. Como algo tão delicioso pode ser pecado? Os ascetas erraram em não experimentar, pois, se eles sentissem o que sinto por ti, eles perceberiam que é oração e entrega. Perdição de uma maneira positiva. Quero o calor da tua presença. Sentir teu hálito queimando minha nuca, teus dedos cingindo meus punhos. Conquistando o que te seria dado de bom grado. Pele e lábios desvendando caminhos, arrancando a venda da consciência, afogando medos e escrúpulos num oceano tépido de prazer. ...
Sepultura, Chaos A.D. (Trilha Sonora de Athena chutando as criaturas do Caos do seu andar) Enquanto as Musas se divertiam, a zona se instalava no andar onde ficava o seu escritório... Caos tinha mandado as suas imbatíveis representantes do Tártaro, as Fúrias, para orquestrar a possessão daquela terra de ninguém que o departamento havia se transformado. A porta do escritório das musas é aberta com uma dose de violência, e lá do seu cantinho, Phobos desvia o seu olhar da tela onde assistia impunemente um episódio de Naturo e fica de todas as cores ao constatar a presença da GC (“grande chefe”) bem diante de si... - As Musas. Onde estão elas?!- a pergunta é cortante. Phobos gagueja: Momento de suspense na novelinha das Musas. e eu me pergunto se esses textos não estão longos demais. Será?! Textos pra mim nunca são longos demais... Acho q isso está ficando bem óbvio... -_-'

to show that
you're my every dream
Yet you're afraid each thing I do
is just some evil scheme
A memory from your lonesome past
keeps us so far apart
Why can't I free your doubtful mind
and melt your cold cold heart?
Norah Jones – Cold Cold Heart
À primeira vista, ser inflexível parece ser uma qualidade. Atributo dos fortes, daqueles que não se deixam ser manipulados, que se atém presos àquilo em que acreditam. Confiáveis, conservadores, eternos. Não se deixam influenciar por palavras ou gestos ou nada. Nada adultera a sua percepção de vida. Firmes como rocha, estáveis.
Mas na verdade, ser inflexível não é nada disso. Essa é a visão otimizada e falsa de tal atitude. Ser inflexível significa, na verdade, ser covarde. Ter medo de suas crenças estarem erradas, e assim você as defende com todas as suas forças. A mudança é algo que deve ser temido e evitado, por que é desconhecido e com o desconhecido a pessoa inflexível não sabe lidar. Ser inflexível é ser soberbo – não reconhecer os erros como tal e, por não reconhecê-los, não aprender nada com eles e assim, estar fadado a repeti-los.
Pessoas inflexíveis estão, de certo modo, condenada à solidão – incapazes de reconhecerem as suas próprias falhas, afastam de seu convívio as pessoas que as “decepcionam”, uma vez que as outras pessoas não conseguem ser, o tempo inteiro, um espelho das opiniões do inflexível. Vaidade elevada ao extremo – o seu reflexo ou nada. Pessoas inflexíveis são intolerantes, não aceitam a diferença, que é a grande tônica dos relacionamentos. Nesse caso, as diferenças são arestas tão agudas que a convivência se torna impossível. O inflexível prefere a frieza de suas opiniões e dogmas ao calor da vida ao lado e pessoas de verdade – que podem te decepcionar e entristecer, mas também te fazem rir e te aquecem o coração com pequenos gestos. Infantilmente, se afasta de quem o desagrada. Seus diálogos, na verdade, são palestras – sem direito de intervenção por parte de quem as escuta. Nada de interação ou questionamento, só aceitação.
Presas na sua torre isolada, construída com o diamante indestrutível de suas convicções, essas pessoas vêem o mundo de longe. Ressentem-se porque os demais não entendem que só existe uma única visão certa de mundo - aquela particular da pessoa inflexível. Seria tão mais fácil e harmônico se aceitassem. Algumas até tentam, mas basta um pequeno desacordo, um detalhe mínimo – e o companheiro vira invasor, pra ser expulso, afastado e difamado, se o inflexível tiver alguém que lhe ouça. Essas pessoas posam de mártires incompreendidos. Que nada fizeram além de tentar fazer o mundo um lugar melhor, moldado à sua imagem e semelhança, onde todos acatem a sua verdade. Mas, como já dizia o filósofo, o que É a verdade? Cada um tem a sua verdade, e ela pode conviver com as outras ou não. No caso dessas pessoas de pedra, não podem.
Solidão, frieza, covardia e medo. Ser inflexível é árido. Prefiro ser como as flores, tocadas pelo vento, mudando de direção e experimentando as sensações de frio e calor que a noite e o dia trazem consigo. Errando e aprendendo, quebrando a cara e me decepcionando, descobrindo felicidades ocultas, almas preciosas atrás de portas fechadas, ouvindo as experiências alheias, deixando a vida dos outros tocar a minha e dividir as minhas histórias com quem quiser ouvi-las, crescendo e deixando o mundo se aproximar de mim...

Como se já não bastasse o peso e a dor da situação em si, tudo isso me traz à memória lembranças desagradáveis. Da morte do meu próprio pai e o mal estar que tudo representa. Pessoas enlutadas, dando pêsames. Lágrimas e aquelas tentativas de consolo que morrem na tentativa. Os sorrisos pálidos que logo somem. A dor tão pungente de gente tão querida, e vc não pode fazer nada pra minimizá-la. Aquele cheiro de flor misturado à vela misturado à dor. Aquele som horroroso quando fecham o jazigo, aquela sensação definitiva de que você jamais verá, tocará ou sentirá o cheiro daquela pessoa nessa vida. Tudo isso é péssimo, cada momento é como ter uma agulha quente sendo empurrada lentamente dentro do seu olho. Mas o depois é muito pior.
Se vc já perdeu alguém sabe como é. É aquele momento em que vc abre a porta de casa e não vê a pessoa no seu lugar costumeiro. Senta pra comer e o mesmo acontece. É sentir falta da voz e da risada,e até da bagunça e das manias. É um vazio que jamais vai ser preenchido. A dor ameniza, atenua – e de vez em quando volta. E quando volta, é como se tudo tivesse acabado de acontecer. Ao menos ainda é assim pra mim. Afinal, faz menos de um ano e meio que o meu pai foi embora. Ainda pode ser considerado recente.
Bem, se você ainda tem pai, mãe, irmãos, algo assim – hoje dê um beijo especial nessa pessoa. Se sentir mesmo isso, pode até dizer que a ama. A gente realmente nunca sabe quando será a última chance de dizer e mostrar isso. Eu acho que já disse isso – ou algo mto similar – aqui no blog, mas... É uma pílula que continua valendo. Hoje, ainda mais.

Hoje eu queria sentir o cheiro do Adriático azul inundando as minhas narinas, a brisa carregada de maresia agitando os meus cabelos. Escutar a canção que são as conversas em italiano, desviar das scooters no meio da rua calçada de pedras retangulares, apreciar as obras de arte que se oferecem aos meus olhos nas praças, despudoradamente.
Hoje eu queria estar num legítimo café em Montmartre, apreciando a vista, mordiscando baguetes e fazendo cara de intelectual entediada em francês.
Hoje eu queria ver o pôr do sol na Barrack Square, e descobrir como é ver o sol morrer no local onde eu costumava vê-lo nascer. Ouvir aquele outro inglês, tão diferente do da TV.
Hoje eu queria estar no centro do anfiteatro de Delphos e sentir a energia e os sons, a vibração dos espíritos dos artistas que já faziam suas performances ali há mais de dois mil e quinhentos anos atrás.
Hoje eu queria estar caminhando por num campo de tulipas em Dresden, tocar suas pétalas macias e descobrir que as flores de sonho são reais.
Queria fazer compras em Harajuku, sorrir para os Elvis nipônicos e suas igualmente fakes bonecas loiras e bronzeadas. Saber como é o sabor de um sushi legítimo e ver uma barraquinha de vender takikomi gohan...
Hoje eu queria estar num lugar belo e especial que não é aqui... Queria uma dose de distância e de fantasia, de sons e toques estrangeiros, descobrindo, conhecendo, abraçando mundos novos. Por que os velhos, às vezes, nos cansam. E às vezes nem Neil Gaiman e nem Foo Fighters podem resolver isso...

Não, eu não fui abduzida e tampouco o pc desmemoriado se desmemoriou completamente antes do tempo. É que hoje à tarde, um anjinho com farda dos Correios usou a sua moto para me trazer duas coisas muito boas...
A primeira foi o encadernado "Fábulas e reflexões". Se eu não me engano, é o 7o. volume da coleção de Sandman que a Conrad está relançando. A outra, o cd "Skin & Bones", o novo do Foo Fighters, acústico e ao vivo.
Eu não sei qual a relação de vocês com seus objetos de desejo materializados, mas eu os curto. Profundamente. Por isso mesmo, eu vou desligar o celular, me sentar na minha rede, aproveitar a brisa de começo de noite, colocar o cd pra tocar e me dedicar à leitura.
Nem preciso dizer que recomendo ambos (como se a minha recomendação valesse muito,heheheh). Sandman é a obra prima do genial Neil Gaiman. Quadrinhos que vão muito além disso, um reino de fantasia que nos convida a entrar e a nos deixar sermos conquistados de bom grado. A Morte é a minha personagem favorita do universo quadrinístico - e eu teria que escrever bastante para tentar explicar o porquê. Quanto a Foo Fighters, well, é Foo Fighters. Precisa de justificativa maior?!
Como provavelmente o pc volta pra assistência na 5a, até lá ainda teremos novidades por aqui Com essas fontes de inspiração, só posso imaginar que serão boas novidades... :).

Bela, porém, era jovem e inexperiente. Infelizmente para ela, era fácil conquistar o seu coração. Um olhar, uma fração de segundo, algumas palavras – e lá ia Bela, seu coração na redoma, entregar o precioso presente nas mãos daquele que seria, para sempre, o dono da delicada peça. A questão era que a princesa se enganava. O coração sumia, roubado. Sem seu coração, a princesa não podia existir – e caía em sono profundo, entristecendo todo o reino. Um sono sem sonhos – ninguém sem coração pode entrar no reino do Lorde Sonho. De uma maneira ou de outra, o coração reaparecia – machucado, mal cuidado, maltratado por mãos que não compreendiam o seu valor e importância. Os magos faziam o possível para remendar as falhas, para retornar o coração à Bela da maneira mais intacta que podiam. Porém, cicatrizes se formavam na superfície macia, diminuindo o seu brilho e beleza.
A Princesa se apaixonava, perdia o seu coração, recolhia-se em si mesma e o aceitava de volta. A freqüência desse ciclo foi se esgarçando no tempo. A Bela, magoada por não conseguir encontrar a pessoa certa em suas tentativas frustradas, foi desistindo. Guardando o seu eu vazio com ferocidade. Era melhor que o seu coração permanecesse perdido – assim, não poderia machucá-la ainda mais, mantê-la refém da esperança de que, na próxima vez, as coisas seriam diferentes. Nunca era diferente, só piorava. A Princesa foi ficando cínica, perdida no seu mundo escuro e sem sonhos. O reino lamentava que a Bela estivesse cada vez mais distante deles.
Um daqueles magos, igualmente triste com a desilusão da Princesa, recebeu mais uma vez o coração machucado. Estava tão amarrotado e sujo que mais parecia um trapo do que um coração. Já bastava, pensou ele com a arrogância e o desprendimento dos jovens. Não iria devolvê-lo à sua dona, ela era uma descuidada. O Mago tomou para si a responsabilidade de cuidar daquele coração arrasado. Em silêncio. Devagar, poupando-o de mais sofrimentos. Indiferente à resolução do Mago e à maneira como ele velava por ela e por seu mais precioso bem, a Bela vagava como sonâmbula naquele mundo, sem sentir. E sem se importar em não sentir, já que o seu coração estava distante...
Sob os cuidados do Mago, o coração começou a se recuperar. Lento. Pequenas coisas, pequenos detalhes. A Bela se viu passando mais tempo desperta. Quando dormia, o Sonhar já não a expulsava – a acolhida relutante foi tornando-se um caloroso gesto de boas vindas. A cor voltou ao seu rosto, o brilho aos seus cabelos. A Princesa flagrou-se sorrindo e ficou mortificada por tal ato. Como poderia sorrir, sem seu coração?! Que tipo de monstruosidade era ela, sorrindo apesar de ser uma falha humana, cujo coração andava perdido pq ninguém o desejava?! Mas mesmo os seus pensamentos negativos não diminuíam a força que ela sentia crescer diariamente. Enquanto isso, nos seus aposentos, longe do olhar dos seus mestres, o mago via aquele farrapo roto transformar-se, lentamente, em bela flor rubra. O coração da princesa era tão lindo quanto ela, e ele poderia cuidar dele para sempre...
Um dia, a Bela observava, em silêncio, a fonte de mármore rosa com suas águas borbulhantes, travessas. O som de passos fez com que ela desviasse o olhar na direção, reconhecendo um dos magos do castelo. Nas mãos longas, ela viu uma redoma familiar...
Protegido pelo cristal, o coração da Princesa falhou uma batida, em uníssono com o espírito de sua dona. O Mago aproximou-se hesitante, enquanto, aturdida, a bela arrebanhou as saias e se ergueu, num tenso silêncio de expectativa. Seus olhos observaram o conteúdo da redoma, arregalados de surpresa:
- Esse... É o meu coração?!
- Sim, minha Princesa – o Mago tinha a impressão que a saliva virava areia na sua língua. Por todos os deuses, ela era linda, tão linda qto ele supusera que ela fosse, reflexo perfeito do coração que ele cuidara por meses à fio...
- Mas... Ele não está mais sozinho. - ela nota, incrédula, a presença de outra flor tão rubra quanto a sua, num tom mais escuro e que vibrava de maneira agitada sob o cristal. Faziam um par perfeito. O Mago suspira, parecendo graciosamente embaraçado (afinal, não ficava bem pra um homem do seu tamanho admitir aquilo...):
- Temo ter perdido o meu coração para o seu, Bela. É seu, se o aceitar. - ele completa timidamente. Era um mago iniciante, sem estabilidade no emprego. Conhecia cada causador de cada cicatriz no lindo coração do qual cuidara, e não se achava páreo para aquilo. Seus dedos cerram-se na redoma com mais força, querendo adiar o momento em que teria que dizer adeus á flor que o conquistara... A voz suave e viva da Bela, porém, faz com que ele erga o olhar:
- Eu aceitarei, Mago, se fizeres o mesmo por mim... - ela estendeu a mão para a redoma. Os dedos se tocando, fazendo aquela barreira cristalina sumir. Não havia mais necessidade dela. Os dois corações bateram em uníssono, unidos para sempre, antes de ocuparem seus respectivos lugares, no peito de cada dono e, ao mesmo tempo, no do seu par...
A viagem terminara. O coração da Princesa estava em casa.

Take everything from the inside
I wont waste myself on you!
Linkin Park – From the Inside
A Vida, raramente, é uma educadora gentil. Às vezes, quando tudo o que você quer é sossego, a segurança do anonimato e permanecer impunemente empurrando a sua rotina de qualquer jeito, ela dá um jeito de fazê-lo parar. Segurando a sua cabeça com força, ela te obriga a dar aquela espiada fatal pra dentro de si mesmo. O olhar é fatal porque, por mais breve que seja, a visão terá força o suficiente para persegui-lo por horas. Dias sem fim – enquanto vc estiver acordado ou dormindo, as lembranças do que você viu lá dentro lhe assombrarão; uma impressão capturada com o seu olhar periférico que não para de fugir quando você volta a cabeça naquela direção, confirmando que não há nada ali além do que você já sabe.
A maioria das pessoas tem uma boa índole. Mas não existe alguém que já tenha deixado a sua infância para trás e cuja alma não tenha cantinhos escuros. Aquelas coisas que você fez e se arrependeu. As palavras ásperas que escapam num momento de raiva, ou de dor. As ilusões quebradas, as oportunidades perdidas. Atitudes que terminaram no fim de uma relação, no afastamento de alguém que você gostava e foi vítima de suas farpas. As pessoas que você considerava preciosas e que se mostraram aproveitadoras, indignas da sua confiança. Amores destroçados, traição, veneno. Nada do que vc se orgulhe, mas, de qualquer maneira, pedaços de você, que compõem a pessoa que você é – bem ou mal.
Muitas vezes nos agarramos a esses fragmentos. Não importa se são cortantes, se machucam fundo; são familiares e isso é o que os tornam preciosos para nós. O conforto daquilo que conhecemos. Ouro de tolo, metal enferrujado, vidro vagabundo que se faz passar por límpido diamante. O Desconhecido está atrás da porta número 2, mas como a nossa insegurança nos tolhe, muitas vezes preferimos os cacos devastados do que passou a arriscar uma espiada atrás da tal porta. Porque ela pode esconder coisas ainda piores. Talvez sejamos mais que inseguros, sejamos também pessimistas. A possibilidade de que exista algo melhor ali atrás, e tão perto, parece tão remota e risível que simplesmente lhes viramos as costas, resignando-os à nossa vidinha, à nossa mesmice.
A Vida, mais uma vez, surge e nos disciplina. Força os olhos a se abrirem, a contemplar o que há por detrás do Novo. Não digo que cair de cabeça no Novo seja sempre maravilhoso – há sempre a chance de erros maiores serem cometidos. Mas como saber por antecipação? Não há como. A única maneira de experimentar as possibilidades é segurar o seu garfo com firmeza, espetá-las e prová-las. Sem deixar o medo amargar o seu paladar.
Estamos todos sempre em período de mudanças. Hoje eu contemplo possibilidades que não seriam nem consideradas como hipóteses, há algum tempo atrás. Se tenho medo? Claro. Mas não pretendo deixar que o medo, mais uma vez, me tolha os movimentos, me aprisione com meus cacos. Estou cansada deles. Quero novos cacos, novas experiências. Este é o meu tempo. Lento ou rápido, limitado ou ilimitado, possível ou distante, mas total e absolutamente meu, para ser o que eu quiser que seja...
Pílula do dia: reconheça as chances. E as segure com toda a força.

Ela olha em volta e se força a sorrir para as amigas. Fora literalmente raptada do sossego da sua rotina de dvd na sexta à noite. Amigas em missão de resgate são um perigo. Perturbaram tanto, que ela acabou se rendendo – soltou o cabelo, maquiou-se, calçou os saltos altos e agora estava ali, segurando uma deslocada água naquele oceano de cervejas e ices. Sorria para as amigas pq não queria decepcioná-las. Mas não se sentia bem ali – combinava com o ambiente tanto qto um cheeseburger combina com uma top model. Uma das amigas a cutuca com o cotovelo, a manda disfarçar a cara feia que estava espantando os carinhas. Ela obedece e sente o seu sorriso ficar 100% artificial. Sabor artificial de garota descolada que estava se divertindo... De sorriso fixo, ela deixa seu olhar vagar. E as íris cor de mel pousam sobre um espécime interessante. Alto, cabelos escuros, cavanhaque... E parecia sentir-se totalmente à vontade, ali.
Ele olha em volta e se força a sorrir para os amigos. Fora literalmente raptado do sossego da sua rotina de livro e boa música na sexta à noite. Amigos quando resolvem que vc tem que colocar a sua vida sexual em dia são uma desgraça. Encheram tanto o saco, que ele acabou se rendendo – seria menos doloroso atender ao pedido do que agüentar aquela lengalenga. Aparou o cavanhaque, escolhera uma roupa com cuidado e agora estava ali, segurando uma deslocada água naquele oceano de cervejas e ices. Sorria para os amigos pq não queria ouvir mais sermões. Mas não se sentia bem ali – combinava com o ambiente tanto qto uma scooter combina com as 500 milhas de Indianápolis. Um dos amigos o cutuca com o taco da sinuca, o manda disfarçar a cara feia que estava espantando as gatinhas. Ele obedece e sente o seu sorriso ficar 100% artificial. Sabor artificial de cara legal que estava se divertindo... De sorriso fixo, ele deixa seu olhar vagar. Sente-se observado. Gira a cabeça na direção certa, instintivamente. E as íris escuras pousam sobre um espécime interessante. Estatura ideal, cabelos de uma cor que oscilava entre castanho e loiro, tornozelos realçados pelos saltos altos... E parecia sentir-se totalmente à vontade, ali.
Os olhares se cruzam, a atenção é despertada. O primeiro sorriso honesto da noite por parte dele, um leve sobressalto por parte dela. Ambos se analisam de maneira discreta. Porém, na certeza de serem os únicos peixes fora d’água naquele ambiente, o entusiasmo diminui.
Olha só pra ele, ela pensa. Jogando sinuca com esse pouco caso de deus grego que resolve visitar os mortais. Deve estar aqui sempre, ser daqueles que conhece cada garçonete gostosa pelo nome (umas até pelo sobrenome). Gostar dessa música chata e pertencer à esse ambiente enfumaçado. Estar aqui toda sexta feira, com os amigos e a companhia da vez. Deus, eu não suportaria isso toda sexta feira. Ele acabaria me achando tediosa, inventando histórias para estar aqui e não comigo. Jamais daria certo.
Olha só pra ela, ele pensa. Sorrindo e conversando com as amigas, um grupo de ninfas atirando charme para os reles mortais. Material para comparações e risadas, depois. Deve estar aqui sempre, ser daquelas que todos os bartenders sabem qual é o seu drinque favorito e ofertam a ela gratuitamente, na esperança de receber um sorriso exclusivo em pagamento. Gostar dessa música chata e pertencer à esse ambiente enfumaçado. Estar aqui toda sexta feira, com os amigos e a companhia da vez. Deus, eu não suportaria isso toda sexta feira. Ela acabaria me achando um porre sem fim, inventando histórias para estar aqui e não comigo. Jamais daria certo.
Suspiros sentidos deixam as gargantas em uníssono. A noite perdera a pouca graça que tivera até então. Ela puxa uma das amigas pelo braço, alega uma dor de cabeça repentina e se despede. Chama um radiotáxi e aguarda bem perto da porta, para não correr o risco de ser demovida. Ele joga a garrafa de água pela metade no lixo, diz a um dos amigos que vai “ali”, mas a maneira como ele devolve o taco à estante mostra que ele não pretendia voltar. Apanha as chaves do carro no bolso e se percebe também sem vontade de ir para casa, sua programação arruinada. Pára por um instante na calçada, sem notar o táxi que passa com a ninfa de cabelos castanhos acomodada no banco traseiro. Ela também se percebe sem vontade de ir para casa. Num impulso, dá o endereço de um café ali perto. Ia tomar um frapuccinno, folhear algumas revistas e tentar esquecer o fiasco daquela noite fora de casa.
É com alívio que ela se deixa ser abraçada pelo ambiente tranqüilo do café. Uma seleção de big bands tocando baixinho ao fundo, um café perfeito, ela se acomoda em uma das mesinhas e começa a folhear uma revista sobre fotografia. Ele estaciona o carro diante do café. Deveria ir para casa e simplesmente aceitar que a noite fora perdida? Bah, poderia fazer isso depois de tomar um cappucinno bem quente. Quando ele empurra a porta, a sineta anuncia a sua presença, e um par de olhos cor de caramelo se erguem na sua direção, com curiosidade que se transforma em choque...
“É o cara do bar!”, ela pensa, boquiaberta.
“É a garota do bar”, ele pensa, de olhos arregalados.
Ambos se analisam mais uma vez. Agora, fora do ambiente coalhado de sons e pessoas. Eles, os livros e revistas, o café e o som suave da orquestra de Glenn Miller ao fundo. A autoconfiança aumenta, a identificação se reforça. E é com certeza absoluta que daria certo, que poderiam ter muitas sextas feiras assim, que ele se aproxima da mesa onde ela estava, sorrisos 100% naturais dessa vez...
Bjs, comportem-se, não comam a massa de modelar e nem matem o porquinho-da-índia da classe!

Damien Rice – Cold Water
Calor. Insano, insuportável, deixando a pele grudenta sob a roupa e dando aquele desânimo. Aquele velho vaqueiro que morava na fazenda do meu avô diria que o sol baixou uns 10 metros, aproximando-se mais de nós. A idéia é tão maluca que faz jus ao clima. Árvores paradas como numa fotografia. Sem vento nem pra encher uma xícara.
As obrigações, porém, não se importam com as adversidades climáticas. Entro no carro e me sinto um bolinho, cozinhando em forno pré-aquecido. O ar condicionado não condiciona mais porcaria nenhuma, só me joga um bafo quente no rosto que faz a minha garganta secar mais. O bloqueador solar (oh, ilusão – adoraria que bloqueasse alguma coisa...!) escorre pela testa e ameaça cair dentro dos olhos. Os óculos escuros escorregam do nariz. Chris Cornell, no som, me faz companhia, indiferente a essa sensação abafada que parece se desenrolar e cobrir a cidade como um tapete. Um incômodo e invisível tapete.
A pasmaceira criada pelo calor parece atingir os motoristas, causando-lhes uma sensação inversa de pressa furiosa. Estão mais loucos do que nos outros dias. O banco está vazio e agradavelmente fresco, e eu só não lamento sair de lá tão depressa porque a outra fila que eu tenho que pegar e posso ver através da superfície envidraçada simplesmente não existe. Oh deus, não tem fila. Se não fosse por esse calor infernal, eu quase poderia ouvir as trombetas angelicais que anunciam um milagre. Paro no meio do caminho pra comprar uma garrafa de água. O toque gelado é refrescante, mas insuficiente. Me faz pensar em como seria perfeito estar nua dentro de uma piscina daquelas de sonho. Um espelho líquido, azul e frio... Principalmente frio...
Uma incômoda sensação começa a me tomar. Além do calor. Um peso esquisito atrás dos olhos. Uma coisa ruim. O chão meio q oscila sob meus pés e eu me sento num dos bancos da praça, sob uma abençoada sombra, tentando me recompor. Sem sucesso. Isso é ridículo. Vivi aqui a minha vida inteira e nunca o calor me fez passar mal. Levantando a cabeça e vendo o termômetro marcar 37 graus, percebo que talvez tenha que rever minhas opiniões. A maneira como a roupa está se colando a minha pele me dá ânsias. Vou caminhando de volta para o carro, uma mão no muro para manter o prumo. Não vou fraquejar. Não há quem chamar, estou por minha conta. Sorte minha que sei o que tenho que fazer e o lugar é perto. Vou dirigindo a vinte quilômetros por hora, incomodando um mundo de motoristas e mais um pouco. Em qq outro momento, eu teria lhes dado uma excelente sugestão do que fazer com suas buzinas. Não agora...
Consigo chegar ao hospital. Lá, conheço quase todo mundo – foi a casa do meu pai por meses sem fim, e eu estava lá todos os dias. São uns anjos de jaleco branco. Estacionam meu carro, me levam pra uma sala deliciosamente gelada, me espetam soro na veia e o médico vem conversar comigo. Sim, e tinha passado mal por conta do calor. Um pouquinho desidratada. Irônico, já que tinha bebido horrores de água. Mas quem sou eu pra discutir com o médico. Tomo meus medicamentos e, dentro daquele ar condicionado abençoado, espero o mundo entrar em foco novamente...
Finalmente me sentindo melhor (ainda com a cabeça grossa, mas enfim), volto pra casa. Não digo nada a minha mãe, para que preocupa-la? Tomo um longo banho, abro as janelas de par em par no quarto escuro. A brisa é fraca, mas está lá. Coloco o velho Frank baixinho no som, sua voz máscula servindo de complemento ao barulho que a rede faz. Descanso, como o médico recomendou.
Mas esse maldito calor não passa...

Após o fiasco do sr. Engravatado, fui ao shopping. Na lista de coisas a fazer, uma passada na pet shop – temos duas cadelas em casa e eu tinha que ir comprar uns agradinhos para elas. Embora, um dia, quando criança, tenha imaginado que o meu eu crescido seria veterinária, uma prova de química me tirou essa possibilidade das mãos. Gosto de animais, mas não gosto de pet shops – detesto animais engaiolados naqueles espaços sufocantes e pequenos. A criança que eu fui deu uns dois ou três grandes escândalos em zoológicos por esse motivo. Não gosto de gaiolas, nem de grades – elas são antinaturais pra qualquer animal, inclusive os humanos.
Enfim, cheguei perto do balcão, fiz o pedido e fiquei esperando. Lancei um olhar meio de esguelha para os passarinhos, os porquinhos da índia e os hamsters. O pedido estava demorando a vir, dei três passos e fui olhar um filhote de Yorkshire acuar um filhote baboso de Fila brasileiro. Então senti aquela comichão na nuca, que surge quando alguém está nos observando detidamente, e me virei pra ver quem era...
E eis que surge o rei. Solitário em uma gaiola separada, me encarando com lascas de esmeralda afiadas. Um filhote de gato persa, pelagem preta com pequenas manchas brancas e aquele olhar arrogante que os gatos têm. Eu não sou muito de gatos, nunca nenhum deles tinha me despertado nada em especial – até esse bichano parar a sua vida de gato e me observar.
Dizer que eu estava intrigada era pouco. Pela situação inteira – afinal, os gatos costumam agir como se não ligassem a mínima para os humanos. Eram adorados como encarnação terrena da deusa Bast no antigo Egito – e deve ser por isso que ostentam esse ar de régio desprezo por humanos em geral. Me aproximei e, nem sei porque, passei o indicador pela grade. Não faço isso pra não estressar ainda mais os pobres bichos. O Rei fita meu dedo e, com toda a majestade, se aproxima de mim, lambe minha pele (nem sabia q gatos faziam isso, é um comportamento tão... canino), me fareja e posiciona a cabeça pra ser tocado. Fui considerada digna...
Serva obediente, fiz isso. Fiquei ali por alguns minutos, deliciando o rei com a carícia barrada pela grade. Aqueles olhos verdes hipnóticos em cima de mim. Quando percebi, já estava me imaginando a chegar com esse membro da realeza felina em casa. O clã certamente viria à loucura. Pra não mencionar as cadelas, ciumentas que são uma da outra e do espaço. Não daria certo. Amor impossível. Seria sermão para três encarnações. A lembrança do cartão de crédito dentro da carteira queimando a memória...
“Nossa, ele não te arranhou?!” - uma voz interrompe o devaneio. O vendedor, com os meus pedidos, fitando a mim e à sua Majestade com ar de estranheza no rosto. Então explicou pq o Rei estava solitário na gaiola – arranhava os outros gatos, arranhava e bufava pros prováveis donos, um monstrinho disfarçado de filhote. Não gostava de ninguém e não deixava ninguém chegar perto. Intratável. Enquanto era difamado pelo vendedor, o Rei bateu a sua patinha no meu dedo inerte, como se protestando pela carícia ter parado por um motivo tão banal qto aquele rufião contando mentiras...
Eu havia sido escolhida. Premiada. Coisa de filme. Num instante de insanidade, mandei mentalmente a família e os impedimentos pro raio que os partisse. Já sorrindo de antecipação, perguntei quanto era o resgate do Rei.
A realidade dói. Três dígitos, aproximando-se perigosamente de quatro, jogados na sua cara, também. Um valor absurdo por um animal supostamente intratável e sem pedigree. O valor era mesmo o de um resgate de um rei. Se cometesse tal sandice no cartão de crédito, não só o rei seria expulso da minha casa – eu também, e sem beneplácito da Credicard pra sobreviver. Fitei o Rei e lamentei em silêncio. Com sua sensibilidade aguda, o Rei também percebeu que a nossa história de amor não era para ser. Pertencíamos a mundos diferentes. Uma última lambida, a cabeça macia movendo-se sob meu dedo, sua Majestade me lançou um último olhar antes de afastar-se e deitar-se no fundo da gaiola, as costas viradas para mim. Abraçando a ausência. Não mostraria a sua dor. Nem eu mostraria a minha, tampouco. Apanhei as guloseimas caninas e fui embora... De coração partido, definitivamente, inevitavelmente apaixonada. E sem ter como pagar o resgate. Oh, vida cruel.
Pílula do dia: como doem essas paixões assassinadas em seu nascer...

The Soup dragons – I’m Free
A gente escuta muito falar sobre preconceito. Preconceito contra brancos, pretos, amarelos, azuis, índios, gordos, baixinhos, advogados e jogadores de rpg. Assunto exaustivamente debatido pela mídia, pelos meios de comunicação. Na época em que eu era “maior”, digamos assim, também passei por isso. Mas hoje, linda e maravilhosa, achei que estar numa situação dessas seria improvável... Ledo engano...
Eu tenho uma tatuagem na panturrilha direita – uma tribal. Quando decidi fazê-la, a primeira pessoa que reclamou horrores, que disse que achava horrível, coisa de marginal e etc, foi a minha mãe. Como a tatuagem era um plano que eu vinha acalentando há um bom tempo e o dinheiro era meu, fui lá e fiz... E, se vocês já realizaram um sonho, vocês sabem qual é a sensação. Eu adoro minha tatuagem. Não me arrependi por nem um segundo de tê-la feito (apesar do PE – partido evangélico – da minha casa ter dito que tatuagem é o mesmo que carimbar seu passaporte para o inferno. Se só isso for o suficiente, ao menos estarei em excelente companhia, lá!). De qualquer modo, a tatuagem (e/ou o preconceito) tomaram proporções indevidas hoje...
Dia de pagar as contas, lá fui eu ao centro da cidade. Com horário de almoçar no meu restaurante favorito. Como o lugar é perto de um monte de bancos e órgãos públicos – o mais perto de um “centro financeiro” que há na minha cidade – no horário do almoço os restaurantes são cheios de engravatados. Cheguei, me servi, arrumei uma mesa vaga – verdadeiro milagre, o salão estava lotado. Quando estava pedindo a minha sagrada água, um cara se aproximou da mesa com sua bandeja e, com um meio sorriso e um sotaque levemente diferente, perguntou se eu me incomodaria de dividir o espaço com ele.
Ah, eu não me importaria de dividir nenhum espaço com ele. Bonitinho, de cabelo quase loiro, enfiado num paletó escuro, gravata de bom gosto, sem anéis ou alianças... E óculos. Aiai. Adoro homem de óculos. Disse ao gajo que poderia se acomodar, não era problema algum. E assim ele o fez. E foi dando a ficha... Recém chegado, funcionário de uma reconhecida instituição financeira, ainda perdido na cidade, sem amigos (“sem ninguém próximo”, ele disse com ênfase). Eu, simpática que nem girassol sob os raios do astro rei, fui dando minha fichinha também. A conversa enveredou pra outros interesses – música, cinema. Eu estava tão absorvida na conversa que nem lembro do que almocei. Fim de refeição, café pra ele, chocolate pra mim e ele, mto cavalheiro, vem puxar a minha cadeira para que eu pudesse levantar. Absolutamente encantada, aceitei o gesto. E eis que o cidadão visualiza a minha tatuagem, lá embaixo da barra da saia que eu estava usando...
A temperatura caiu uns 70 graus abaixo de zero. Ele olhou pra mim, pra tatuagem pra mim novamente – e eu com aquela cara de “o que?? O que tem grudado no meu sapato?!”. Já pronta pra morrer de vergonha, arrisquei um olhar pra baixo e só via a minha perna, a tatuagem e o sapato. Finalmente caindo a ficha, eu levanto o olhar pra ele e digo:
- Vc não gosta de tatuagens, não é?
- Não, acho vulgar.
Sei que o meu interesse foi congelado naquele instante. Recolhi minhas coisas, agradeci a companhia, me despedi séria e fui pagar a minha conta. Nem olhei para trás pra ver com que cara o cidadão ficou. Provavelmente aquele guardanapo escrito com caneta preta foi para o lixo, com um monte de possibilidades interessantes...
Pílula do dia: se for julgar as pessoas, julgue-as pelo seu interior, sua personalidade e atitudes – não pela embalagem, posses ou tatuagens.

Foo Fighters – Aurora
Hoje eu me flagrei pensando em você. Não que eu não pense em você com alguma freqüência – uma rápida e momentânea conexão de sinapses, uma memória que brota e some sem aviso. Hoje eu me flagrei conscientemente pensando em você. Uma ponta de saudade misturada à incredulidade, à tristeza e à raiva. Mas a raiva se for deixada quieta no canto dela, eventualmente esfria. E fica assim como a minha, uma coisa morna que não anima mais nada e só torna tudo mais cinzento.
Hoje eu parei por um instante e pensei em como você estava. Sei que a sua vida é complicada. A de todo mundo é. Mas você tem complicações extras. Sua solidão na cidade grande, os empregos ruins, a família que mesmo distante dá dores de cabeça. Me peguei preocupada. Será que você está se cuidando, comendo direito? Ou continua andando por essas ruas com nenhuma companhia além de sua sombra, na plena convicção de que nada de mal vai te acontecer? Não tenho mais como saber da sua vida, uma vez que fui expulsa dela. Você certamente esticaria a coluna e diria que você não me expulsou, que eu sai por minha conta, que antes disso, se alguém havia sido afastado, esse alguém era você...
Eu me pergunto se de fato você acredita nisso. Se a sua consciência não te acusa nem um pouco que a história não foi bem assim. Se você acha sinceramente que fui eu a responsável pela destruição desse laço. Será que você cogita que pode ter sido você? Essa possibilidade existe na sua mente? Talvez não. É tão mais fácil se fazer de vítima indefesa, cervo colhido pelos faróis de um caminhão assassino. É tão mais fácil não admitir o ciúme, a infantilidade, a ofensa disfarçada de sinceridade. Você não estava usando a honestidade, estava sim machucando fundo e sabia disso, tenho certeza. Não é o tipo de coisa que se faça inadvertidamente. É tão mais fácil se agarrar a essa máscara e pacificar as vozes sumidas da consciência. Optar pelo mais fácil parece ser um hábito, pois a vida já é tão dura...
Sinto sua falta. De verdade. Mas me pergunto que tipo de pessoa você é, com essa capacidade enorme de afastar as pessoas que se preocupam contigo. Primeiro sufoca, impõe-se em todos os espaços, faz planos e uma vez que o brinquedinho se rebela, ou te decepciona, você vai embora. Não importa se 99% das suas vontades foram satisfeitas – ou tudo ou nada. Jeito extremista de ver as coisas. Life on the edge. Depois que você se foi, outras pessoas se aproximaram e comentaram comigo atitudes suas. Percebi que não era só comigo que vc agia assim, afinal. Longe de alívio, eu só senti a tristeza aumentar. Meus sentimentos não te ajudaram em nada a mudar – você os usou como já havia usado outros sentimentos alheios, antes.
Com ou sem você, a vida segue. Novas pessoas surgem, velhas pessoas são redescobertas, os laços que te provocaram ciúme só ficaram mais fortes. Continuo sorrindo e criando. Tenho saudades das madrugadas, dos telefonemas. Parte de mim sente muito não ser a pessoa que você esperava. Mas a maior parte de mim não pede desculpas por não corresponder às suas estranhas expectativas. Os bons sentimentos não resistem a esse jogo de “a culpa é toda sua”, pq eles são fortes, mas até mesmo a fortaleza deles tem limite. Sua incompreensão, seu ciúme tolo (pra que tanto ciúme, eu me pergunto... Se eu tenho sentimentos de sobra para quem conseguir se aproximar de mim...), suas palavras agressivas disfarçadas se ciência, sua atitude teimosa e defensiva me machucaram fundo. Mais uma cicatriz numa alma que já carrega algumas. Mas estou aqui.
E você está onde quer que esteja, suponho. Uma alma solitária que provavelmente não vai entender que a confiança e o carinho não são essas algemas que você imagina. Que gostar de alguém não significa se trancar numa redoma com essa pessoa e não permitir a entrada de mais ninguém. De que adianta chamar alguém de “irmão”, se essa é só uma maneira de encobrir sua possessividade? Sou uma pessoa, e não um objeto, para pertencer só a você, trancado dentro de uma caixinha dourada à qual só você pode ter acesso. Gostar de outras pessoas não significava gostar menos de você. Mas, infelizmente, não é assim que você enxerga o mundo...
Eu tento imaginar como está o seu mundo agora, sem mim. Não tenho sucesso. Imagino que você não perca o seu tempo pensando em mim, já que eu fui descartada com tanta facilidade. Devo ter sido substituída por outra pessoa, a sua nova “melhor companhia do mundo, alma gêmea, a única pessoa que te entende, etc etc”. De todo modo, eu torço por você, ainda. Não sou mto esperta, não sei alimentar sentimentos daninhos por muito tempo. Espero que esteja tendo uma boa vida. Que um dia, você cresça e entenda que os seus conceitos não são os melhores. Que no jogo dos relacionamentos, não há espaço para extremos sem a punição de ver a pessoa preciosa ir embora. Ou ser expulsa. No fim, não faz diferença, pois o resultado é o mesmo – a ausência...
A pílula de hoje é: Existem muitas maneira de dizer o que você pensa. E se você escolhe a pior delas, você não está defendendo a verdade – está apenas agredindo a outra pessoa gratuita e deliberadamente. E outra: a sua verdade não equivale, necessariamente, à verdade dos fatos (ia dizer verdade verdadeira, mas isso é realmente dúbio)...

Bon Jovi – I’ll Be There For You
( Éroto in a damn good mood)
- A ausência de vocês causou uma grande comoção. - Athena diz, com sua voz levemente seca. Felizmente o tom não era de quem advertia crianças desmioladas. Estava mais para a simples constatação, o que, de certa maneira, era pior do que a deusa esbravejasse. Os sons do bar voltam a fluir de leve, reunindo naturalidade, enquanto a mulher se aproximava de suas (in)subordinadas. Calíope, a líder daquela rebelião, endireitou os ombros, reuniu coragem e atirou a pergunta irônica:
- Então perceberam a nossa falta? Surpreendente, uma vez que não ligam a mínima para nós!- o amargor estava bem óbvio não apenas nas palavras, mas também na expressão da Musa. Athena suspira. Não bastasse ter tido que agüentar a Pítia e todo o resto, ainda teria que lidar com a (até mesmo) justificada revolta das garotas. Impaciência não a levaria a nada. Assim, ela se aproxima do bar e pede uma dose de néctar num copo longo, com bastante gelo picado. Acomodando-se no banco alto, a deusa aprecia o drinque antes de fitar as espantadas Musas:
- Claro que percebemos a ausência de vocês, Calíope. Vocês não fazem idéia de quanto são importantes, fazem? Muitas pessoas dependem do seu trabalho. EU dependo do trabalho de vocês. A situação no escritório está oficialmente caótica. As Erínias estão lá. - a informação provoca um frisson de desconforto entre as Musas. Era o mesmo que dizer que a situação estava além de negra. Nenhuma delas esperava que a escapada aparentemente inconseqüente fosse gerar tal celeuma. De qualquer maneira, Polímnia aponta:
- Vocês tem os temporários. Os pessoais. Não precisam, realmente, de nós. Por todos os deuses, vocês tem até as Piérides!- ela revira os olhos ao mencionar as concorrentes. Athena mastiga a cereja que enfeitava o néctar com ar concentrado e diz com simplicidade:
- Nenhum deles é uma de vocês. As Musas são as fontes primordiais da inspiração humana. Tudo vem de vocês. Até mesmo os pessoais. Eles são a personalização da vibração única que vocês mandam para um determinado artista. É a energia de vocês sob outra forma, mas ainda assim, de vocês. Nesses tempos, não somos mais tão conhecidos, nosso trabalho não é tão valorizado. Mas isso é uma visão corporativa aceita, executivos mais ousados como Jesus e Alah estão em maior evidência nesse momento, o que não significa que os velhos deuses sejam simplesmente dispensáveis. Ocupamos espaços que não são exatamente interessantes para os poderosos, como a Arte e a Inspiração Pessoal. Eles fazem pouco caso da força desses aspectos para os humanos, pq não entendem que são coisas assim que tornam os humanos únicos. Eles só se interessam por orações, sacrifícios e guerras travadas em Seus nomes. - Athena faz um gesto no ar, traduzindo seu desprezo.
- Tudo bem, vamos voltar. Mas temos condições. Sem ligações nos dias de folga. Precisamos de, pelo menos, mais um estagiário. E mais espaços para os temporários. E eles têm que nos obedecer, ora essa...
- Será feito. - Com um sorrisinho satisfeito, Athena termina seu néctar. Estava feliz por ter conseguido que as Musas compreendessem como a sua ausência causava tristeza a um mundo de pessoas. Igualmente contentes por terem sido relembradas de sua importância (e pela perspectiva de um novo estagiário), as Musas retornam. Chutando as Erínias para longe. Arrancando Phobos da frente do monitor e de seus animes, colocando-o para trabalhar. Trabalhando com gosto renovado, satisfeitas por ainda conseguirem aquela luz dos corações humanos, até mesmo na forma de música ruim e textos piores. Pois haviam também mtas coisas boas. Neste mundo, havia Stephen King e Neil Gaiman, Foo Fighters e Jewel, bons filmes e boas séries de tv, além de muitos escritores anônimos, iluminando, com as suas linhas, o dia de websurfers através do mundo...
Mas, infelizmente, Urânia não conseguiu fazer Plutão voltar a ser um planeta. Nem tudo podia ser 100%, não é?!
***
Esse texto singelo (longo, mas singelo ainda assim) foi uma maneira de falar das Musas e especialmente de Arte. Há uma grande discussão sobre o q é ou não é Arte – para mim, Arte é aquilo que emociona quem a consome de alguma maneira. Ou seja, cada blog nesse mundinho afora pode ser, também, considerado como Arte. E outra: As Musas são mto importantes para nós... Temos que nos esforçar pra receber a inspiração sempre de braços abertos – vai saber quando elas decidem se revoltar novamente... :D!!
I wanna hold your hand in
I wanna run naked in a rainstorm
Make love in a train cross-country
So now what?
For you to justify my love
Hoping, praying
For you to justify my love
For you to justify my love
What are you gonna do?
Talk to me -- tell me your dreams
Am I in them?
Tell me your fears
Are you scared?
Tell me your stories
I'm not afraid of who you are…
Fazer o quê? Ando sentindo-me sexy ;)
- Bom, Dona Athena... Elas... Elas meio que se revoltaram, sabe... Falta de condições... Excesso de trabalho... E tem todo aquele lance da Urânia e o planeta que não é mais planeta. - o estagiário parece satisfeito com a sua explicação. As sobrancelhas de Athena se unem, tentando entender, até que finamente ela compreende (Ora essa, ela era a deusa da SABEDORIA, pô!).
- Hm... Percebo... Problemas de auto-estima e stress. Elas poderiam ter falado comigo, ou com Kwan Ti antes de sumirem e armarem toda essa confusão! Não é possível que elas não entendam a importância delas dentro do nosso trabalho!
- Ninguém quer falar com o Kwan Ti, Dona Athena.
- E pq não, Phobos? Ele é o pacificador, o intermediário...
- Ele é um chato, dona Athena. Com aquelas dinâmicas de grupo e aquele papo de abraçar as árvores.
-... Levarei à sua observação
- A senhora pode tentar a Pítia, Dona Athena. Não é ela quem sabe de tudo?- a Pítia era uma velhusca puxa-saco de Apolo que adorava dar conta da vida de todo mundo – dentro e fora do espaço de trabalho. Se alguém soubesse onde encontrar as Musas fujonas, certamente seria a Pítia. Athena se arma de paciência. Seria obrigada a ver as fotografias dos netos da fofoqueira, a dizer que os pequenos monstrinhos eram fofos e que o marido da pequena Pítia era um vagabundo. Suspirando, ela endireita os ombros. Era também a deusa da guerra – e sabia que, em momentos de urgência, algumas estratégias condenáveis teriam que ser usadas. Assim, a deusa marcha a passos largos para o Oráculo. Satisfeito por ter sido – ao menos uma vez!! – útil, Phobos volta pro seu anime...
Com uma risadinha meio alta, Polímnia vira mais uma dose de drinque de maçã e estende o copo para o garboso elfo preencher o espaço tristemente vazio. O lugar era cheio de deidades jovens, saradas e dispostas – era um crime algumas das pobres Musas estarem com típicas “roupas de escritório”. Como se tivessem fugido do trabalho. Bem, tinham mesmo. Sentindo-se uma escolar mal comportada, Poli revira os olhos com uma risada feliz. Se não podiam nem cometer aqueles pecadilhos de vez em quando, de que servia ser divindade?! As outras Musas deixavam os olhares correrem pela pista lotada. Cada uma delas lembrava, de um modo ou de outro, quando o mundo era mais jovem e inocente. Elas eram realmente importantes naqueles dias... Inspiravam poetas, heróis... Eram tempos mais felizes. Não havia cantores de rap cantando “só as cachorra u-hu” e nem pretensos reaggueiros miando “quando deus te desenhou ele tava namorando”. Sentiam-se realmente necessárias. Agora pareciam presas em um escritório meio à força, resolvendo pepinos que nada tinham de gloriosos e ainda por cima sem sequer terem o gostinho do reconhecimento. Havia tantas fontes de inspiração pessoal agora que elas haviam sido reduzidas a administradoras. E aquilo doía horrores...

Eu adoro dança, e música. E filmes musicais. Ok, eu sou extremamente descoordenada e duvido que possa realmente dançar junto com alguém sem muito, muito treino. Mas acho lindo quem sabe dançar – especialmente quem sabe dançar as ditas “danças de salão”, com um parceiro (a). Dançar pra mim representa tudo o que um homem e uma mulher podem fazer numa cama quando estão vestidos e com outras pessoas em volta. Uma explosão sensorial de sensualidade, que entra pelos seus ouvidos, olhos e pele, e encontra respostas em seu corpo inteiro. Pq, assim como no amor, na dança há vários tipos de approach. A força contida da valsa, o convite à festa da salsa, a sexualidade agressiva do tango.
Neste último feriado, assisti ao filme chamado “Take the lead”, estrelado pelo Antonio Banderas. Se você não tem problemas com filmes que mostram como a Arte pode ser uma saudável válvula de escape para as pessoas, lições de vida edificantes e tal, eu diria que o filme compensa o aluguel do DVD. Especialmente por duas cenas, e em ambas, o tema é o tango. Sem Spoilers aqui, já que eu realmente não vou estragar o fim do filme nem nada.
Na primeira cena, o professor Pierre Dulaine mostra aos seus alunos como é dançar o tango de verdade. Banderas e uma garota loira de vestido negro. A sensualidade explode na tela, a música é simplesmente perfeita. Você pode sentir a paixão torturada tão característica do tango. Na segunda cena de destaque, um triângulo amoroso – outro clichê do tango, por assim dizer – mostra todas as nuances das relações descritas tão bem por esse ritmo.
O mistério da aproximação. O descobrimento do parceiro como amante. Um olhar que desliza, encontrando outra pessoa. A divisão de sentimentos, o ciúme, a disputa, e finalmente, a rendição. Coisas de amores intensos. Daqueles que você só experimenta uma vez na vida... Aquele sentimento devastador e maravilhoso que faz com que vc se sinta poderoso e miserável, tudo ao mesmo tempo. Tocar o céu e ser atirado ao inferno. Compreender o poder que aquela pessoa tem sobre você, e vice-versa. Sentir-se rei e servo, dominador e dominado, vitorioso e vencido pela força das suas emoções e sentimentos.
A paixão é um sentimento poderoso, inexplicável e que muitas vezes machuca. Tal como as chamas douradas, ele trai de maneira irresistível e pode queimar ao menor descuido. Nunca se sabe quando ele irá capturá-lo. Só é capaz de entender a paixão quem já foi tocado por essa força irremediável. Provavelmente só é capaz de compor, tocar ou dançar um tango com verdadeiro sentimento quem já passou por isso...
Pílula de hoje: Escute um tango. E sinta. Pra ajudar, vc pode baixar um clássico desse ritmo aqui. As musas e suas (des) aventuras voltam em breve (quem sabe até ainda hoje!).

Green Day, Rebel Girl
( Especialmente para Cali)
O grito de revolta de Calíope faz as irmãs abaixarem os telefones, interromperem as conversas e a digitação. Clio termina de mastigar seu docinho chinês em constrangido silêncio. Os olhos de todas recaem sobre Polímnia – ela era a que era boa com as palavras, a mais indicada para argumentar com uma Musa que provavelmente estava alucinando e a qq momento começaria a quebrar coisas como a pobre Urânia. Se continuassem daquele jeito, seriam substituídas pelas insuportáveis Piérides, aquelas xérox mal-tiradas! Poli aceita a incumbência silenciosa e, levantando-se devagar, caminha até uma Calíope que respirava de maneira curta e ruidosa:
- Cali... Fofa... O que é que já chega?! Fala pra mim.
Os olhos escuros de Calíope perfuram Polímnia como se ela fosse tão descerebrada qto Hebe (a deusa da juventude, e não a múmia falante da TV). A voz melodiosa começa baixa, mas termina aguda e zangada:
- Isso... Tudo ISSO! Estamos sobrecarregadas de trabalho, esses temporários nada mais fazem do que roubar nossas idéias, temos que agüentar os humanos rebaixando os planetas de estimação da Urânia sem protestar e nada fazemos além de nos queixar umas para as outras!! É hora de dar um basta! Quero minhas férias atrasadas, todas as horas extras que não me pagam desde que eu praticamente ditei a Ilíada pro Homero. Deu no saco. Simplesmente DEU!!- de maneira atabalhoada, Calíope começa a jogar suas coisas, de maneira desordenada, dentro da bolsa. Em volta dela, sete pares de olhos se dilatavam em pura surpresa... Até mesmo Polimnía estava sem palavras – e isso era além de raro. Éroto, com sua vozinha delicada de garota sexy de filmes duvidosos, ensaia:
- Não podemos simplesmente sair. Está na hora do expediente. Temos coisas a fazer...
- Éroto, se vc não tem nada mais importante do que ajudar garotos virgens e espinhentos a escreverem cartas indecentes pra revistas de sacanagem de 5ª categoria, EU tenho. Pro Tártaro com isso!- a olímpica Musa exclama, decidida. Um tanto da sua revolta parece contaminar as irmãs...
- Bem, eu realmente não agüento mais essas músicas pra esses grupos todos iguais... E agora que a Britney largou o marido, ela vai querer fazer um novo CD... Pelos Deuses, aquela garota chorando as pitangas amorosas por aquele tal FedEx é demais pra mim!!
- Sinceramente, eu gostaria de mandar todos esses ocupantes da faixa de Gaza enrolar suas convicções preconceituosas e enfiá-las no...
- A gente sempre tem o estagiário da Urânia. Não é pq ele é filho do Ares que é completamente inútil...
- Se fizermos greve, eu posso NÃO inspirar o escritor daquela novela insuportável?!- a última vez que as irmãs tinham ouvido aquela nota de felicidade na voz de Mel fora quando ela parara de prestar serviços à Virginia Wolf. Sem nem disfarçar, Thália desliga o telefone na cara do comediante, e o sinal de ocupado do outro lado da linha lhe parece o maravilhoso som da redenção. As últimas barreiras caem, as últimas dúvidas morrem. Oito mulheres movem-se como uma só, apanhando bolsas, dando retoques no cabelo, soltando risadinhas nervosas. Jamais tinham se revoltado contra o status quo. E aquilo era... Refrescante e libertador. Nenhuma campanha publicitária de desodorante fazia jus a tal sentimento...!!
Elas já estão indo, lépidas e fagueiras, na direção da porta, quando esta se abre e revela Hermes. O cara da correspondência, entre outras coisas. Do alto de seu aquilino nariz grego, os olhos escuros se afastam do malote e encaram aquela horda de musas prontas para caírem fora:
- Hã... O que houve?!- ele pergunta. Musas se entreolham. Mentir ou não mentir? Deviam simplesmente empurrar o deus dentro do carrinho da correspondência e jogá-lo escada abaixo?! Trancá-lo com o estagiário??? Por fim, Mel puxa um lenço negro de dentro da bolsa negra e limpa os cantos dos olhos secos com aquela interpretação de ganhar Oscars:
- Temos uma emergência em casa. A Urânia, sabe... - a voz dela se quebra, como se tomada pela emoção. Ela esconde o rosto no ombro de Thália e Éroto explica, batendo os cílios com ar indefeso (nunca falhava):
- Vc sabe, né, querido... Temos que ir. Deixamos um aviso. Voltamos assim que der.Bye- bye...!!- ela acena os dedos pálidos com um sorriso digno das ubberdeusas do amor. Embasbacado, Hermes acompanha a horda de irmãs sumir no corredor, pedindo à Wen Chang pra segurar o elevador, poooor favor!!
Assim as musas escaparam. Aproveitando os cheiros e os sons da Heliópole pela primeira vez em muito tempo. Andaram à toa, braços unidos, cabelos ao vento felizes como crianças em manhã de natal ou um cortejo dionisíaco – até mesmo a sempre circunspecta Melpômene (o que dava exatamente a medida de quão aflitivo era inspirar o autor da novela das 8). Foram à delicatessen dos adoradores de Tsao Chun, que faziam os doces mais tentadores daquele lado do Vahalla, e estouraram a quota de calorias de uma semana entre brincadeiras e risadas. Soltaram assovios de aprovação quando o Belo Balder passou pela calçada oposta, praticando o jogging que lhe rendia o título de “o mais sexy” da revista DEUSES pelos últimos séculos. Foram até a loja de Madame Aracne e experimentaram as lingeries mais escandalosas imaginadas pela fiandeira. Enfim, se divertiram à larga e fecharam o dia num club chamado Yggdrasil, que se anunciava como “onde o mundo começa e termina”. Depois de algumas doses de hidromel, eggnogg e drinques de maçã de Idunna, as Musas estavam se sentindo mais do que satisfeitas com a sua transgressão.
O mesmo não podia ser dito, porém, dos grandes chefões do Setor helenístico, que imaginavam onde estavam as responsáveis pelo setor de Artes e ofícios. Hermes havia gaguejado algo sobre a triste situação de Urânia e não soubera dizer mais nada. Elas haviam deixado um estagiário lá. Mas claro q ele não sabia de nada (se estagiário não é gente nem na terra, o que dirá nas esferas superiores). Os celulares de todas estavam desligados, fora da área, sem serviço e sem dono. E o Caos já começava as preparações para instalar uma filial naquele andar...
Continua amanhã... E a Musa com a rosa amarela é um presente para a minha companheira de ofício que adora rosas amarelas... :)